“Nunca quisemos”: o que mudou na versão do Flamengo sobre Luiz Henrique?

Uma frase de José Boto recolocou Luiz Henrique no centro do noticiário rubro-negro.

Ao comentar a tentativa de contratação do atacante do Zenit, o diretor de futebol do Flamengo foi categórico ao afirmar que o clube nunca quis Luiz Henrique da maneira como a negociação foi apresentada publicamente.

A explicação de Boto é que a possibilidade teria sido levada ao Flamengo por pessoas próximas ao jogador. As condições apresentadas inicialmente teriam parecido muito favoráveis, mas, quando o clube entrou em contato diretamente com o Zenit, o cenário encontrado teria sido diferente.

É uma versão importante.

Mas também é uma versão que merece ser colocada ao lado de tudo o que foi publicado durante o mês de agosto.

Porque, naquela época, a percepção era outra.

Agosto: Luiz Henrique era tratado como alvo real

No dia 5 de agosto, o ge publicou que o Flamengo havia avançado pela contratação de Luiz Henrique. Segundo a reportagem, a operação girava em torno de 30 milhões de euros fixos mais 5 milhões de euros em bônus, e o jogador já teria dado sinal positivo para o projeto rubro-negro.

No dia seguinte, outra reportagem tratou o atacante como o novo foco do clube depois da dificuldade para fechar com Thiago Almada. A publicação dizia que o Flamengo havia decidido concentrar esforços na negociação com Luiz Henrique.

No dia 7, a história ganhou ainda mais detalhes.

O ge informou que Flamengo e Zenit haviam avançado financeiramente e que Boto teria sinalizado uma operação que poderia chegar a 35 milhões de euros, enquanto Bap estabelecia um teto inferior para o investimento.

Naquele mesmo dia, o interesse era tratado como forte e independente do prazo de inscrição para a Libertadores. A reportagem dizia que o Flamengo mantinha o desejo de contratar o jogador para a sequência da temporada.

Horas depois, o estafe de Luiz Henrique anunciou oficialmente o encerramento das conversas com o Flamengo.

Havia até expectativa interna pelo anúncio

Talvez o ponto que mais chame atenção hoje esteja em uma reportagem publicada no dia 8 de agosto.

Segundo o ge, Flamengo, Zenit e representantes de Luiz Henrique chegaram a discutir uma operação de 30 milhões de euros mais 5 milhões em bônus. A matéria dizia que havia confiança interna no fechamento e que até formas de anunciar o reforço já estavam sendo discutidas.

A mesma reportagem afirmava que empresários ligados ao atacante participaram das conversas com o Zenit e ajudaram na tentativa de flexibilizar condições de pagamento.

Isso torna a nova declaração de Boto ainda mais interessante.

Não necessariamente porque uma das versões precise ser falsa.

Mas porque existe uma diferença enorme entre dizer:

“Tentamos contratar Luiz Henrique, mas desistimos das condições.”

e dizer:

“Nunca quisemos Luiz Henrique.”

Boto apresenta agora outra leitura da história

Pela versão atual do diretor, Luiz Henrique não teria sido um alvo identificado pelo Flamengo e perseguido no mercado.

O jogador teria aparecido como uma oportunidade.

Pessoas próximas ao atacante teriam apresentado ao Flamengo uma possibilidade que parecia financeiramente muito interessante. O clube então decidiu verificar a operação.

Ao procurar o Zenit, porém, Boto afirma que encontrou condições diferentes daquelas inicialmente apresentadas.

Se essa versão estiver correta, a história muda de natureza.

O Flamengo não teria ido atrás de Luiz Henrique. Teria recebido uma oportunidade, avaliado e, depois de verificar diretamente com o clube russo, entendido que aquilo não fazia sentido.

Então por que a negociação pareceu tão avançada?

Essa é a pergunta que permanece.

Pode existir uma explicação relativamente simples.

No mercado da bola, uma oportunidade pode rapidamente virar uma negociação concreta. Um agente apresenta um jogador, o clube demonstra interesse, conversa com o proprietário dos direitos e começa a discutir valores.

Isso não significa necessariamente que Luiz Henrique estivesse originalmente no planejamento do Flamengo.

Mas, a partir do momento em que há discussão de cifras, contato com o Zenit, diálogo com o estafe e até expectativa de fechamento, é natural que externamente aquilo passe a ser tratado como uma tentativa de contratação.

É possível, portanto, que Boto esteja utilizando agora a expressão “nunca quisemos” no sentido de “nunca fomos ao mercado buscar Luiz Henrique como prioridade”.

Essa diferença de linguagem é fundamental.

E se as condições realmente foram apresentadas de forma errada?

Existe ainda uma segunda questão.

Se pessoas próximas ao jogador disseram ao Flamengo que uma operação poderia acontecer em determinadas condições e, ao consultar o Zenit, o clube descobriu que essas condições não correspondiam à posição dos russos, é legítimo perguntar o que aconteceu nesse caminho.

Isso não permite afirmar que houve má-fé.

Pode ter ocorrido uma estimativa otimista dos intermediários, uma tentativa de aproximar as partes ou simplesmente uma negociação ainda sem autorização definitiva do Zenit.

Mas, caso alguém tenha apresentado como acordadas condições que sabia não terem sido aceitas pelos russos, a situação seria muito mais séria.

Até agora, não há elemento público suficiente para fazer essa acusação.

Uma história que ainda tem versões diferentes

Curiosamente, mesmo semanas depois do fim das conversas, reportagens recentes continuaram descrevendo o Flamengo como o clube brasileiro que mais avançou pela contratação de Luiz Henrique. No início de setembro, o ge voltou a registrar a operação de 30 milhões de euros fixos mais 5 milhões em bônus como uma negociação que esteve próxima de avançar.

É justamente por isso que a nova declaração de Boto chama tanta atenção.

Ela não apenas acrescenta um detalhe.

Ela muda a forma de interpretar toda a negociação.