Houve um tempo em que falar sobre o futuro do Flamengo significava, antes de qualquer coisa, falar sobre dinheiro. Ou melhor: sobre a falta dele.
A frase “acabou o dinheiro” virou uma espécie de retrato daquela época. Um detalhe importante: ela foi dita pelo então presidente Márcio Braga em 2009, originalmente em uma discussão relacionada aos gastos com esportes olímpicos. Mas a expressão atravessou os anos porque simbolizava algo muito maior: a percepção de um Flamengo enorme em torcida, história e repercussão, mas incapaz de transformar todo esse tamanho em estabilidade financeira.
Quando uma nova gestão assumiu o clube em janeiro de 2013, encontrou uma realidade brutal. O próprio Flamengo relataria depois salários atrasados, impostos não pagos, penhoras, fornecedores protestando contra o clube e uma dívida avaliada em aproximadamente R$ 750 milhões no primeiro semestre daquele ano.
Naquele momento, muita gente olhava para o Flamengo e via um clube quebrado.
Um gigante, sim.
Mas um gigante adormecido.
Antes de contratar, era preciso sobreviver
A decisão tomada em 2013 foi dolorosa, principalmente para o torcedor acostumado a medir a grandeza do Flamengo pelo futebol.
Era preciso gastar menos.
Era preciso pagar compromissos antigos.
Era preciso recuperar credibilidade.
Era preciso, muitas vezes, contratar aquilo que o caixa permitia — e não aquilo que a torcida sonhava.
Quem acompanhou aquele período lembra de um Flamengo que não conseguia simplesmente entrar no mercado e disputar jogadores com qualquer adversário. A prioridade estava em outra parte da Gávea: organizar uma instituição que durante anos gastara mais do que conseguia sustentar.
Em 2014, dirigentes do próprio clube resumiam a nova filosofia de maneira simples: arrecadar mais do que gastar e utilizar o excedente para resolver obrigações acumuladas do passado.
A reconstrução não foi bonita todos os dias.
Houve sofrimento esportivo, cobrança, temporadas frustrantes e impaciência.
Mas havia uma escolha.
O Flamengo poderia continuar tentando parecer rico enquanto carregava problemas estruturais cada vez maiores ou poderia aceitar um período de austeridade para tentar construir algo que durasse.
Escolheu a segunda opção.
O detalhe de 2013 que hoje parece profético
É aqui que essa história ganha um capítulo impressionante.
Em março de 2013, apenas alguns meses depois de assumir o clube, a nova administração lançou o programa Nação Rubro-Negra.
Na apresentação, Luiz Eduardo Baptista, o Bap — então vice-presidente de Marketing e hoje presidente do Flamengo — participou da exposição de um projeto extremamente ambicioso.
A proposta apresentada naquele momento incluía transformar o Flamengo no melhor time das Américas e em um dos cinco maiores clubes do mundo.
Em um balanço do departamento de Marketing publicado pelo próprio Flamengo no ano seguinte, a ideia foi novamente registrada: a missão assumida em janeiro de 2013 era transformar o clube em “um dos cinco maiores clubes do mundo”, com profissionalização, governança, recuperação da credibilidade e crescimento acelerado das receitas.
Leia isso novamente olhando para 2026.
Naquele Flamengo endividado, a diretoria falava em chegar aos cinco maiores.
Treze anos depois, o Flamengo foi incluído entre cinco finalistas ao prêmio de Clube Masculino do Ano da Bola de Ouro de 2026, ao lado de Paris Saint-Germain, Bayern de Munique, Arsenal e Bodø/Glimt.
Não é a mesma classificação.
A Bola de Ouro não está dizendo que esses são, de maneira definitiva, os cinco maiores clubes da história ou os cinco clubes mais ricos do planeta.
A lista reconhece os cinco clubes de maior destaque esportivo no período analisado pela premiação.
Mas o simbolismo é impossível de ignorar.
O Flamengo passou mais de uma década tentando transformar uma ambição institucional em realidade esportiva e econômica.
Agora está sentado numa mesa que, em 2013, parecia muito distante.
De R$ 750 milhões em dívidas a receitas bilionárias
O salto financeiro ajuda a entender a transformação.
Em 2013, o Flamengo trabalhava com uma dívida estimada em cerca de R$ 750 milhões.
Em 2025, o clube registrou R$ 2,089 bilhões em receita bruta total, maior faturamento de sua história até então. O exercício ainda terminou com aproximadamente R$ 336 milhões de superávit e patrimônio líquido de R$ 954 milhões.
É fundamental fazer uma ressalva: não se deve comparar diretamente os R$ 750 milhões de dívida de 2013 com indicadores atuais como se fossem exatamente a mesma métrica contábil.
Não são.
O que demonstra a transformação é o conjunto: capacidade de gerar receita, pagar compromissos, construir patrimônio, realizar grandes investimentos e permanecer competitivo esportivamente.
O Flamengo deixou de ser um clube que precisava explicar por que não podia gastar para se tornar uma organização que precisa explicar como pretende administrar receitas superiores a R$ 2 bilhões.
É uma mudança de dimensão.
O dinheiro começou a aparecer dentro de campo
Organização financeira sozinha não faria o torcedor se apaixonar por planilhas.
O objetivo sempre foi transformar a reconstrução em futebol.
E isso aconteceu.
A partir do momento em que o Flamengo começou a possuir capacidade de investimento compatível com sua dimensão popular, surgiram elencos mais fortes, grandes contratações e uma sequência de títulos que devolveu o clube ao centro do futebol continental.
O Rubro-Negro voltou a ganhar Libertadores, voltou a conquistar Brasileiros, passou a disputar decisões internacionais e transformou presença em mata-matas importantes em rotina.
Em 2025, por exemplo, o Flamengo terminou campeão da Libertadores e do Campeonato Brasileiro, conquistas que pesaram diretamente na indicação da Bola de Ouro de 2026.
O clube que precisou diminuir expectativas para sobreviver passou a trabalhar com a expectativa de ganhar tudo.
Hoje a comparação mudou
Durante décadas, a discussão sobre o tamanho do Flamengo ficou quase sempre limitada ao Brasil.
Flamengo é maior que Corinthians?
É maior que Palmeiras?
É o maior do Rio?
Qual é a maior torcida?
Qual clube ganhou mais?
Essas discussões continuam existindo e fazem parte do futebol.
Mas uma coisa mudou.
A régua começou a sair do Brasil.
Hoje aparecem na mesma conversa nomes como PSG, Bayern de Munique e Arsenal.
Não porque o Flamengo tenha alcançado a mesma realidade econômica da Premier League, da Bundesliga ou de clubes financiados por mercados muito mais ricos.
As diferenças monetárias continuam gigantescas.
O real não compete em igualdade com euro e libra. As receitas de televisão europeias são incomparavelmente maiores e a capacidade de atração das principais ligas do mundo continua superior.
Mas o Flamengo começou a mostrar que consegue compensar parte dessa distância com aquilo que sempre teve e durante muito tempo não soube transformar em potência institucional:
uma torcida gigantesca.
Uma capacidade de mobilização extraordinária.
Uma marca enorme.
Um mercado consumidor próprio.
Uma força comercial que cresce na mesma proporção em que o clube consegue organizar sua gestão.
O Flamengo sempre foi gigante.
A diferença é que hoje esse gigantismo aparece também no balanço, no elenco, nas taças e no reconhecimento internacional.




