Lucas Paquetá voltou ao Flamengo cercado por expectativa, identificação com o clube e um investimento histórico. O balanço financeiro rubro-negro revelou que a operação chegou a R$ 315,669 milhões, considerando aquisição dos direitos, luvas e intermediação. É a contratação mais cara da história do Flamengo.
O retorno também não pode ser tratado como fracasso absoluto. Paquetá tem números relevantes. O próprio site oficial do clube registra 34 jogos e 11 gols na temporada, e um deles veio recentemente na vitória por 2 a 1 sobre o Corinthians, pelo Brasileirão.
Ainda assim, existe uma pergunta que acompanha o jogador desde a volta e ganhou ainda mais força após a classificação contra o Independiente del Valle:
Afinal, onde joga Lucas Paquetá neste Flamengo?
Leonardo Jardim foi questionado exatamente sobre isso depois do empate por 1 a 1 no Maracanã. E a resposta do treinador mostrou que a discussão está longe de estar encerrada.
Jardim vê Paquetá como segundo volante
Contra o Del Valle, Paquetá começou mais avançado, ocupando uma função normalmente exercida por Arrascaeta.
A ideia de Jardim era utilizar a força física do camisa 11 nos duelos e na chegada à área contra uma equipe equatoriana agressiva. O plano não funcionou como esperado. O treinador reconheceu que Paquetá ficou abaixo do nível habitual e acabou recorrendo a Arrascaeta durante o segundo tempo.
Ao explicar como enxerga o jogador, Jardim foi bastante claro: se fosse escolher uma posição principal para Paquetá, seria a de segundo volante.
O treinador lembrou que o brasileiro já atuou em diversas funções na Inglaterra, mas explicou que prefere utilizá-lo por dentro. Na comparação feita pelo próprio técnico, Paquetá entra no grupo de jogadores que podem exercer funções semelhantes às de Jorginho, Saúl e Nico De la Cruz, ainda que também consiga atuar mais adiantado.
A resposta ajuda a entender um problema que ainda parece acompanhar o Flamengo.
Paquetá pode fazer muita coisa.
Mas talvez justamente por conseguir fazer muita coisa ainda não tenha uma função completamente definida.
Entre Jorginho e Arrascaeta
Esse é o ponto central.
Quando Paquetá atua mais recuado, assume responsabilidades próximas às de Jorginho: aproxima-se dos zagueiros, participa da saída de bola, disputa duelos, acompanha adversários e precisa ajudar no controle do meio-campo.
Quando joga mais adiantado, recebe outro tipo de missão.
Precisa ocupar espaços entre as linhas, acelerar a criação, encontrar o último passe, aproximar-se dos atacantes e aparecer com mais frequência na área.
São funções diferentes.
E Paquetá vem transitando entre elas.
Jardim explicou depois do jogo que também precisa administrar o elenco. Segundo o treinador, escalar Paquetá sempre significaria retirar outro jogador de alto nível, como Jorginho. A profundidade do elenco permite rotação, mas também cria um problema de encaixe.
A própria utilização do meio-campo ao longo do ano mostra essa dificuldade.
O quarteto formado por Pulgar, Jorginho, Paquetá e Arrascaeta havia atuado junto por apenas 175 minutos em quatro partidas até o fim de agosto. Apenas uma dessas formações começou uma partida como titular. O posicionamento de Paquetá foi apontado como um dos principais obstáculos para reunir todos no mesmo desenho.
Não parece coincidência.
Números ajudam Paquetá
Existe, porém, um contraponto importante.
Mesmo sem uma posição consolidada, Paquetá produz.
No início de setembro, ele chegou a 10 gols pelo Flamengo em 2026 e revelou que havia estabelecido como nova meta chegar a 20 até o fim da temporada. Poucos dias depois, marcou também contra o Corinthians.
São números relevantes para um meio-campista.
No Brasileirão, por exemplo, Paquetá já havia marcado cinco vezes em 19 partidas antes do duelo contra o Del Valle. O jogador também marcou na Libertadores e conseguiu decidir partidas mesmo durante um período de adaptação e interrupções físicas.
Isso mostra que o problema não é falta absoluta de participação ofensiva.
Paquetá chega à área, finaliza bem e tem capacidade para aparecer como elemento surpresa.
Mas o investimento feito pelo Flamengo inevitavelmente eleva a cobrança.
Um jogador que custou mais de R$ 315 milhões não será analisado apenas pelo número de gols.
A expectativa é que se torne uma referência técnica, tática e decisiva da equipe.
E essa versão ainda parece estar em construção.
Versatilidade ajuda ou atrapalha?
Leonardo Jardim já elogiou publicamente a capacidade de Paquetá atuar em várias posições.
Em setembro, chegou a brincar com o valor do jogador justamente pela versatilidade.
Essa qualidade realmente oferece alternativas ao treinador.
O problema aparece quando a versatilidade deixa de ser uma solução ocasional e passa a impedir a criação de uma identidade dentro do time.
Um jogador pode entender perfeitamente diferentes funções. Mas automatismos são construídos com repetição.
O posicionamento sem bola, o tempo de chegada à área, o momento de pressionar, a distância em relação aos companheiros e até os espaços que o atleta procura receber dependem da função que exerce.
Jogar uma partida como segundo volante e outra praticamente como meia central exige adaptações constantes.
Isso não significa que Paquetá esteja perdido ou que não compreenda as funções. Não há base para afirmar isso.
Mas é razoável questionar se a falta de continuidade em uma posição está impedindo que o Flamengo extraia sua melhor versão.
O peso de R$ 315 milhões
Paquetá não definiu o próprio preço.
O investimento foi uma decisão do Flamengo.
Mas, no futebol, cifras criam expectativas.
O clube não colocou R$ 315,669 milhões numa operação apenas para contratar um jogador útil para várias posições. A expectativa natural é que Paquetá se torne uma das principais referências do elenco.
Ele já mostrou momentos dessa capacidade.
Tem gols, qualidade técnica, força física e experiência internacional.
O que ainda falta é transformar essas qualidades em uma sequência de atuações que deixem claro qual é o seu peso dentro do modelo de Jardim.
E talvez a primeira decisão necessária seja justamente a mais básica:
definir onde Paquetá joga.




