Pedro não deixou de ser um dos melhores centroavantes do futebol brasileiro. Os números da temporada impedem qualquer análise exagerada nesse sentido. São 24 gols em 43 partidas pelo Flamengo em 2026 e 15 gols no Campeonato Brasileiro.

O problema está no presente.

A última vez que Pedro balançou a rede foi em 22 de agosto, contra o Cruzeiro. Desde então, passou em branco diante de Botafogo, Mirassol, Remo, Independiente del Valle e Corinthians. São cinco aparições consecutivas sem marcar. Nesse intervalo, contribuiu com uma assistência contra o Mirassol, mas está distante da produção que apresentou anteriormente. Segundo o FotMob, o camisa 9 soma 15 gols e cinco assistências no Brasileirão.

A seca, isoladamente, não seria suficiente para acender um alerta. Todo atacante atravessa períodos sem marcar.

A questão é como Pedro está jogando.

Nos últimos compromissos, o camisa 9 tem apresentado um excesso de preciosismo justamente em uma região do campo na qual objetividade costuma separar grandes atacantes dos demais. Em situações que pedem uma finalização simples, um domínio rápido ou um movimento direto em direção ao gol, Pedro por vezes procura uma solução mais sofisticada.

Calcanhar. Letra. Um toque a mais. Uma tentativa de construir o gol bonito quando talvez bastasse construir o gol.

Contra o Corinthians, isso ficou particularmente evidente.

Contra o Corinthians, não foi apenas falta de gol

O Flamengo dominou amplamente a partida no Maracanã. Leonardo Jardim contabilizou 33 finalizações rubro-negras contra apenas três do adversário. O Corinthians passou boa parte do confronto tentando sobreviver à pressão.

Era exatamente o tipo de partida em que se esperava protagonismo de Pedro.

Ele teve uma das melhores oportunidades do primeiro tempo ao ficar frente a frente com Hugo Souza, mas finalizou em cima do goleiro. Em outro momento, Hugo também evitou uma conclusão do centroavante à queima-roupa. O Flamengo acumulou chances sem conseguir transformar superioridade em vantagem confortável.

Mas a cobrança não se resume às oportunidades desperdiçadas.

Pedro esteve menos intenso do que já mostrou ser capaz de estar. Pressionou pouco a saída adversária, atacou poucos espaços e teve uma participação sem bola abaixo do padrão que ele próprio já apresentou em outras partidas.

É importante fazer essa distinção.

Não se trata de afirmar que Pedro “não corre” como característica permanente. Há jogos em que participa da pressão, volta, disputa e trabalha para o coletivo. Contra o Corinthians, isso praticamente não apareceu.

E, quando o gol também não vem, sobra pouco para compensar.

O contraste com o Pedro de agosto

A própria temporada mostra que existe outro Pedro.

Em 16 de agosto, contra o Mirassol, marcou duas vezes na goleada por 5 a 1. Quatro dias depois, mesmo sem balançar a rede contra o Cruzeiro pela Libertadores, deu duas assistências e foi fundamental na vitória por 2 a 1. Em 22 de agosto, voltou a marcar diante do Cruzeiro pelo Brasileiro.

Observe a diferença.

Contra o Cruzeiro na Libertadores, Pedro não precisou fazer gol para jogar muito. Prendeu a marcação, encontrou companheiros infiltrando e tomou decisões simples e eficientes.

Essa talvez seja a principal cobrança neste momento.

O Flamengo não precisa obrigatoriamente de um Pedro artilheiro em todas as partidas. Precisa de um Pedro útil.

Se o gol não aparece, existem outras maneiras de participar. Pressionar. Fazer parede. Arrastar o zagueiro. Dar opção. Atacar a área. Abrir espaço. Servir um companheiro.

Quando essas ações diminuem ao mesmo tempo em que os gols desaparecem, a atuação começa a pesar.

Felipe Melo colocou o problema em palavras

A atuação diante do Corinthians também provocou críticas fora do Flamengo.

No programa Fechamento SporTV, Felipe Melo afirmou que faltou “seriedade” a Pedro em alguns lances e relacionou a crítica justamente ao preciosismo apresentado pelo atacante. O ex-jogador fez questão de reconhecer a qualidade do camisa 9, mas entendeu que algumas escolhas têm atrapalhado seu futebol nos últimos jogos.

A palavra pode parecer forte, mas a essência da crítica é pertinente.

Pedro possui recursos técnicos que poucos centroavantes no Brasil possuem. Finaliza com as duas pernas, domina dentro da área, joga de costas, tem qualidade no passe curto e consegue produzir gols extremamente difíceis.

Justamente por isso, não precisa provar sua técnica em cada lance.

Às vezes, excelência é fazer o óbvio antes que o adversário consiga reagir.

Bruno Henrique aumenta a pressão

O roteiro do domingo tornou inevitável outro contraste.

Pedro iniciou a partida. Teve tempo e oportunidades para decidir.

Bruno Henrique entrou depois.

Aos 43 minutos do segundo tempo, com o Flamengo ameaçado de deixar escapar dois pontos em uma partida que dominou, o atacante de 35 anos atacou a área, ganhou a disputa e cabeceou para decidir o jogo.

Não significa que Bruno Henrique deva automaticamente assumir a vaga de Pedro. São jogadores diferentes, capazes de cumprir funções diferentes.

Mas futebol também é momento.

Quando um atacante perto dos 36 anos sai do banco, compete, se movimenta e resolve enquanto o principal camisa 9 atravessa uma fase de pouca produção, a cobrança sobre o titular passa a ser inevitável.

E deve ser.

O Flamengo montou um elenco justamente para que ninguém tenha posição garantida apenas pelo currículo.

Cinco jogos sem gol não são uma tragédia — o desempenho é que preocupa

É preciso separar as coisas.

Cinco partidas sem marcar não transformam Pedro em problema. Um jogador que soma 24 gols na temporada não desaprendeu a finalizar em três semanas.

A preocupação está na soma.

Menos gols. Menos agressividade. Menos intensidade em determinadas partidas. E, simultaneamente, decisões excessivamente elaboradas em situações que poderiam ser resolvidas de maneira muito mais direta.

Essa combinação merece atenção porque o Flamengo entrou na parte da temporada em que oportunidades desperdiçadas custam caro.

Contra o Corinthians, Bruno Henrique apareceu no fim e corrigiu o problema.

Contra outro adversário, talvez não haja uma segunda chance.