Dentro de campo, o Flamengo vive um momento excelente.
A vitória sobre o Corinthians, decidida nos minutos finais, manteve o clube na liderança do Campeonato Brasileiro. Na Libertadores, a equipe também carrega uma vantagem importante de 2 a 0 sobre o Independiente del Valle para o jogo de volta no Maracanã.
Esportivamente, as coisas caminham bem.
Fora de campo, porém, o Flamengo está diante de uma decisão que pode produzir efeitos muito mais duradouros do que qualquer resultado de uma rodada.
Nesta terça-feira, 15 de setembro, o Conselho Deliberativo se reúne para votar o texto final da chamada reforma do profissionalismo, projeto apresentado originalmente por Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e posteriormente analisado e alterado pela Comissão Permanente de Estatuto. A reunião será extraordinária, em formato híbrido, com primeira convocação às 18h30 e segunda às 19h.
A ideia central parece correta: profissionalizar ainda mais a administração do Flamengo.
A questão não é essa.
A questão é entender exatamente como essa profissionalização vai funcionar e quais garantias o clube terá de que a nova estrutura será realmente mais segura do que aquela que existe hoje.
A proposta muda profundamente a forma de administrar
A proposta apresentada por Bap prevê o fim das vice-presidências específicas com funções operacionais e a criação de uma estrutura comandada por profissionais remunerados.
Marketing, comunicação, finanças, administração, jurídico, tecnologia, futebol e outras áreas passariam a ser administradas por executivos profissionais contratados com critérios técnicos, metas de desempenho e avaliações periódicas.
Ao mesmo tempo, o atual Conselho Diretor daria lugar a um Conselho Gestor, responsável por funções estratégicas e de fiscalização da Diretoria Profissional.
Bap defende que o modelo atual concentra poder excessivo nas mãos do presidente.
Segundo ele, hoje o presidente pode interferir diretamente em praticamente toda a operação do clube. A reforma tentaria separar governança e execução: profissionais administrariam o cotidiano e estruturas colegiadas fariam fiscalização, aprovação de políticas e acompanhamento de resultados.
A intenção é compreensível.
Nenhum clube do tamanho do Flamengo deveria depender exclusivamente da capacidade ou da personalidade de uma única pessoa.
Mas é exatamente neste ponto que começam as perguntas.
Se o poder sai do presidente, para onde ele vai?
Poder administrativo não desaparece.
Ele é transferido.
Se o presidente deixa de tomar determinadas decisões diretamente, alguém passa a tomá-las.
Pode ser um diretor de marketing.
Pode ser um diretor-geral.
Pode ser um executivo de futebol.
Pode ser um conselho.
Pode ser uma combinação entre diferentes estruturas.
E distribuir poder pode ser excelente.
Mas distribuir poder não significa automaticamente distribuir segurança.
A segurança existe quando cada pessoa sabe exatamente até onde pode decidir, quais resultados precisa entregar e quem vai fiscalizar suas escolhas.
Sem isso, o Flamengo pode apenas trocar um risco concentrado por vários riscos espalhados.
Um profissional também pode gastar mal
Existe um equívoco comum quando se fala em profissionalização.
A palavra “profissional” parece carregar uma garantia automática de eficiência.
Não carrega.
Um profissional de marketing pode receber um orçamento de R$ 1 milhão e gastar exatamente aquele R$ 1 milhão.
Pode respeitar todas as regras.
Pode obedecer às alçadas.
Pode cumprir todos os procedimentos internos.
E ainda assim gastar mal.
Se uma campanha custa R$ 1 milhão e não entrega resultado, o fato de ela estar dentro do orçamento não transforma aquele gasto em uma boa decisão.
A mesma lógica vale para o futebol.
Um diretor pode respeitar o orçamento destinado a contratações e ainda contratar jogadores que não entreguem.
Pode seguir processos corretos e tomar decisões técnicas ruins.
Isso acontece em qualquer empresa.
E acontecerá eventualmente no Flamengo.
A questão é saber como o clube identifica o erro e quem responde por ele.
O exemplo do Maracanã ajuda a entender o problema
O Flamengo vive atualmente uma discussão envolvendo a operação e a lotação do Maracanã.
Independentemente do mérito específico daquela investigação, o episódio oferece um exemplo interessante para pensar a futura estrutura administrativa.
Imagine que um problema grave aconteça no estádio.
Quem responde?
O profissional diretamente responsável pela operação do Maracanã?
O diretor ao qual aquela área está subordinada?
O diretor-geral?
O Conselho Gestor, que deveria fiscalizar?
O presidente?
Ou cada um responde apenas por uma parte da decisão?
Essa pergunta pode parecer excessivamente burocrática enquanto tudo funciona.
Deixa de ser burocrática no momento em que alguma coisa dá errado.
Uma boa estrutura de governança não serve apenas para dizer quem pode decidir.
Serve principalmente para deixar claro quem responde quando a decisão falha.
O risco da responsabilidade diluída
No modelo atual, existe pelo menos uma percepção política muito clara.
O presidente é a principal figura executiva do clube.
Quando uma grande decisão dá errado, a responsabilidade política inevitavelmente chega até ele.
Num modelo com maior descentralização, surge um risco diferente.
Imagine novamente uma contratação ruim.
O diretor pode afirmar que a contratação estava dentro do orçamento aprovado.
A área financeira pode dizer que havia capacidade para realizar a operação.
O Conselho pode argumentar que apenas aprovou uma política geral.
A presidência pode dizer que respeitou a autonomia técnica do departamento.
Todos podem ter participado do processo.
E, ao mesmo tempo, ninguém assumir completamente o erro.
Esse é um dos perigos de qualquer estrutura corporativa mal construída.
Descentralizar poder pode ser saudável. Descentralizar responsabilidade, não.
Bap afirma que a reforma justamente aumenta os controles
Esse contraponto precisa ser feito.
Bap afirma que a proposta não pretende reduzir fiscalização, mas aumentá-la.
Segundo o presidente, seriam criadas políticas formais de governança, matrizes de alçadas e processos auditáveis. O Conselho Gestor passaria a orientar e fiscalizar, enquanto a Diretoria Profissional executaria. O Conselho de Administração também ganharia participação na aprovação das políticas de governança.
Bap também sustenta que o Conselho Deliberativo preservará suas atuais atribuições e que a formalização das regras facilitará a fiscalização dos atos administrativos.
Essa é justamente uma das principais defesas do projeto: reduzir decisões pessoais e aumentar decisões baseadas em processos.
Se isso funcionar exatamente dessa maneira, o Flamengo pode evoluir significativamente.
Mas uma reforma estatutária não deve ser analisada apenas pela intenção.
Precisa ser analisada pelo desenho.
O Flamengo não está começando do zero
Outro ponto precisa entrar nessa discussão.
O Flamengo não está tentando reconstruir uma administração completamente falida.
O clube conseguiu nos últimos anos aumentar receitas, recuperar capacidade de investimento, desenvolver patrimônio e construir uma estrutura que o colocou entre as maiores potências esportivas da América do Sul.
O próprio Flamengo vem adotando medidas adicionais de governança, como a aprovação recente de um Código Eleitoral e de Boas Condutas, criado para ampliar segurança jurídica, transparência e mecanismos de compliance.
Isso não significa que o atual modelo administrativo seja perfeito.
Certamente não é.
Mas significa que existe algo funcionando.
E quando alguma coisa funciona, o caminho mais responsável nem sempre é substituí-la completamente.
Pode ser aperfeiçoá-la.
Profissionalizar é necessário
Não existe aqui uma defesa do amadorismo.
Muito pelo contrário.
O Flamengo precisa de especialistas.
Um departamento de marketing deve ser dirigido por quem entende profundamente de marketing.
Uma área financeira deve ser administrada por profissionais qualificados.
Tecnologia, comunicação, jurídico, futebol e gestão precisam estar nas mãos de pessoas capazes de trabalhar no nível de uma organização que movimenta cifras enormes.
Esse avanço é necessário.
O que precisa ser entendido é o equilíbrio entre autonomia e controle.
Quanto maior a autonomia entregue a um profissional, maior precisa ser a clareza sobre os mecanismos capazes de avaliar seu trabalho.
Não basta dizer:
“Você pode gastar até este valor.”
É preciso dizer:
“O que você precisa entregar com este valor?”
“Como seu resultado será medido?”
“Em quanto tempo?”
“Quem fiscaliza?”
“Quem pode interromper o projeto?”
“E quem responde se der errado?”
A reforma pode proteger o Flamengo de um mau presidente
Existe ainda outro argumento importante a favor do projeto.
Hoje podemos ter um presidente competente.
Amanhã podemos não ter.
Um estatuto não deve ser construído pensando apenas em quem ocupa atualmente o cargo.
Ele precisa proteger a instituição de futuros dirigentes.
Se o modelo atual realmente concentra poderes excessivos na presidência, então criar barreiras institucionais contra decisões individuais pode ser extremamente positivo.
Mas essa proteção só existe se a estrutura que recebe esse poder for mais segura.
Se o poder simplesmente sair de uma pessoa e for distribuído entre várias sem mecanismos claros de responsabilização, o risco não desaparece.
Ele muda de formato.




