Quando o trabalho aperta, Jardim pede reforços: Flamengo precisa cobrar respostas
Leonardo Jardim voltou a aumentar o tom sobre a necessidade de reforços para o Flamengo. Depois dos empates contra São Paulo e Internacional, o treinador afirmou que o elenco precisa de jogadores técnicos, criativos e capazes de desequilibrar diante de adversários que atuam com linhas defensivas baixas.
Na avaliação do português, apenas Arrascaeta e, pontualmente, Samuel Lino conseguiram realizar os movimentos necessários para romper as defesas mais fechadas nos últimos jogos. Jardim afirmou que José Boto conhece a importância de contratar atletas capazes de atuar em espaços reduzidos.
O pedido pode fazer sentido quando analisado isoladamente. Todo elenco pode ser melhorado, e o Flamengo deve estar permanentemente atento ao mercado. A questão, porém, é outra: essa não é a primeira vez que Leonardo Jardim recorre ao argumento da falta de jogadores criativos quando seu trabalho atravessa dificuldades.
Foi exatamente o que aconteceu no Cruzeiro.
O mesmo discurso utilizado no Cruzeiro
Em fevereiro de 2025, após a eliminação do Cruzeiro no Campeonato Mineiro, Leonardo Jardim confirmou que havia solicitado reforços. O treinador afirmou que o elenco poderia ser melhorado e que algumas peças eram necessárias para tornar a equipe mais competitiva.
Meses depois, após um empate sem gols com o CRB pela Copa do Brasil, Jardim voltou a apontar uma carência muito semelhante à que identifica agora no Flamengo.
Na ocasião, o português afirmou que o Cruzeiro não possuía um jogador capaz de desequilibrar em espaços curtos, superar um ou dois adversários e encontrar passes decisivos contra equipes fechadas. Para explicar o perfil desejado, citou justamente Everton Ribeiro e Arrascaeta.
O Cruzeiro possuía Matheus Pereira, seu principal meia e organizador, mas Jardim considerava necessária a chegada de outro jogador com capacidade de criação e desequilíbrio.
Agora, no Flamengo, o treinador vive situação parecida. Tem Arrascaeta, Carrascal, Samuel Lino, Lorran, Jorginho, De La Cruz e outros jogadores de qualidade técnica, mas volta a apontar a contratação como uma das principais respostas para as dificuldades ofensivas da equipe.
Os clubes mudaram. Os jogadores mudaram. O discurso, porém, é praticamente o mesmo.
Jardim elogiou o elenco quando chegou
Ao ser apresentado pelo Flamengo, em março, Leonardo Jardim demonstrou satisfação com o grupo que recebeu. O treinador destacou a qualidade dos jogadores, as condições de trabalho e a possibilidade de dar continuidade ao que vinha sendo construído anteriormente.
Também afirmou que não pretendia alterar o DNA da equipe e que aproveitaria muitas coisas do trabalho deixado por Filipe Luís. Jardim disse ter encontrado jogadores abertos ao trabalho e condições para montar uma equipe dominante, capaz de disputar todas as competições.
Poucos meses depois, o cenário mudou.
O Flamengo deixou de ser apresentado como um grupo preparado para dar continuidade a um trabalho vencedor e passou a ser descrito como uma equipe que precisa urgentemente de jogadores criativos para conseguir enfrentar adversários fechados.
É evidente que lesões e ausências interferem. Arrascaeta, Carrascal, Gonzalo Plata e Luiz Araújo passaram por problemas físicos em diferentes momentos. Isso reduz as opções da comissão técnica. No entanto, o treinador de um clube do tamanho do Flamengo não pode depender exclusivamente da presença de todos os titulares para apresentar uma equipe organizada.
Contratar não pode ser a única resposta
Não existe problema em pedir reforços. O erro está em transformar novas contratações na primeira explicação sempre que o trabalho entra em dificuldade.
Leonardo Jardim tem nas mãos um dos elencos mais fortes das Américas. O Flamengo possui jogadores experientes, campeões, atletas de seleção e jovens de grande potencial. Evidentemente, existem carências. Nenhum elenco é perfeito. Mas não se pode analisar o desempenho atual como se o treinador comandasse um grupo limitado e sem alternativas.
Cabe à comissão técnica potencializar aquilo que possui.
O Flamengo precisa voltar a pressionar o adversário, melhorar a saída de bola, acelerar a circulação, criar variações ofensivas e oferecer soluções coletivas. Essas correções não dependem apenas da chegada de Almada, Luiz Henrique ou qualquer outro reforço.
Contratar pode melhorar o time. Contratar não substitui treinamento, organização e evolução tática.
Insatisfação com o trabalho precisa ser observada
Segundo Mauro Cezar Pereira, existe insatisfação entre jogadores do Flamengo com a diferença de intensidade dos treinamentos e com um repertório técnico e tático considerado inferior ao apresentado durante o trabalho de Filipe Luís.
O jornalista ressaltou que não existe uma movimentação do elenco para derrubar Leonardo Jardim nem uma rejeição pessoal ao treinador. O desconforto estaria relacionado ao método de trabalho, à intensidade e à dificuldade de adaptar o modelo do português às características do grupo.
Essa diferença é importante.
Não se pode acusar os jogadores de conspirarem contra o treinador sem provas. Entretanto, também seria irresponsável ignorar a possibilidade de que atletas experientes estejam percebendo uma queda na qualidade e na intensidade do trabalho diário.
O Flamengo vem apresentando um futebol lento, previsível e com poucas variações. A equipe lateraliza excessivamente, encontra dificuldades para construir pelo centro e concede espaços defensivos que anteriormente eram melhor controlados.
Mauro Cezar também afirmou que existe uma incompatibilidade entre a proposta mais reativa de Jardim e o perfil de um elenco montado para controlar os jogos, pressionar no campo adversário e trabalhar com posse de bola.
Se essa incompatibilidade realmente existe, ela precisa ser resolvida pelo treinador e pela diretoria. Não pode ser empurrada indefinidamente para a próxima janela.
Bap e José Boto precisam tomar uma posição
O presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e o diretor de futebol José Boto precisam avaliar com seriedade o que está acontecendo.
A solução não pode ser simplesmente entregar novos jogadores a Leonardo Jardim sempre que a equipe apresentar dificuldades. Antes de abrir novamente os cofres, a direção precisa cobrar um diagnóstico claro do trabalho realizado.
Qual é o modelo de jogo pretendido? Por que o Flamengo perdeu comportamentos importantes? Por que a equipe apresenta tão poucas variações? Por que jogadores que anteriormente rendiam mais hoje parecem inseguros e desconfortáveis?
José Boto já declarou que o Flamengo não possui dinheiro infinito e que não pode contratar sete ou oito jogadores em todas as janelas, especialmente quando o próprio clube é apontado como dono do melhor elenco das Américas.
Essa afirmação precisa valer na prática.
O Flamengo pode e deve contratar jogadores que realmente elevem o nível do grupo. Mas a diretoria não pode permitir que o mercado seja utilizado como uma cortina para esconder a falta de evolução do treinador.




