Vasco elimina rival e avança: quem protege os clubes que mantêm as contas em dia?
Em recuperação judicial, Vasco reorganiza dívidas, busca financiamento milionário e continua investindo no futebol. Classificação sobre o Vitória expõe uma discussão que o futebol brasileiro terá de enfrentar: até onde termina a recuperação financeira e começa o desequilíbrio esportivo?
O Vasco eliminou o Vitória nas quartas de final da Copa do Brasil. Venceu por 1 a 0 em São Januário, voltou a superar o adversário no Barradão, desta vez por 2 a 0, e avançou às semifinais com 3 a 0 no placar agregado.
Dentro das quatro linhas, não existe discussão: o Vasco venceu porque foi superior nos dois confrontos.
Mas talvez seja justamente aí que comece uma discussão muito maior fora delas.
Enquanto disputa títulos, recebe premiações, contrata jogadores e tenta fortalecer seu elenco, o Vasco atravessa uma recuperação judicial destinada a reorganizar um enorme passivo financeiro.
Nesta sexta-feira (4), a Administração Judicial, o Watchdog e o Gatekeeper responsáveis pelo processo deram parecer favorável à contratação de um novo empréstimo DIP de até R$ 150 milhões e ao prosseguimento do processo competitivo que pode resultar na venda de 90% de uma nova SAF.
O parecer ainda precisa passar pelas etapas judiciais previstas no processo.
O problema, portanto, não é afirmar que o Vasco esteja fazendo algo ilegal simplesmente por utilizar os instrumentos disponíveis na recuperação judicial.
A questão é outra — e o futebol brasileiro talvez esteja atrasado em enfrentá-la:
até que ponto uma recuperação financeira pode produzir consequências esportivas capazes de afetar clubes que competem contra aquele devedor?
A dívida fica fora de campo. O benefício pode entrar nele
Uma recuperação judicial existe justamente para tentar impedir a falência de uma empresa economicamente viável.
Credores renegociam valores, prazos são ampliados, dívidas podem ser parceladas e a companhia ganha condições para continuar funcionando enquanto tenta se reorganizar.
No futebol, porém, existe uma particularidade.
O clube que reorganiza suas obrigações financeiras não deixa de competir.
Continua contratando jogadores.
Continua disputando campeonatos.
Continua recebendo receitas.
E, principalmente, continua enfrentando adversários que podem ter adotado uma política financeira completamente diferente.
É aí que surge uma pergunta desconfortável.
Imagine um clube que limita suas contratações, controla salários e reduz investimentos justamente porque decidiu manter suas contas equilibradas.
Do outro lado está uma instituição com dificuldades financeiras profundas, utilizando proteção judicial para reorganizar centenas de milhões de reais em obrigações, mas ainda capaz de buscar recursos e reforçar seu departamento de futebol.
Quando os dois entram em campo, as dívidas não aparecem no placar.
Os jogadores contratados, sim.
O Vitória ajuda a transformar a discussão em algo concreto
A classificação vascaína diante do Vitória é importante para essa discussão exatamente porque mostra como decisões financeiras podem chegar ao gramado.
O Vasco venceu esportivamente.
Isso precisa ficar muito claro.
Não existe qualquer razão para diminuir o mérito dos jogadores ou da comissão técnica vascaína pela classificação.
Mas o futebol não começa quando o árbitro apita.
O elenco que entra em campo é consequência direta das decisões tomadas nos meses anteriores: quanto foi investido, quem pôde ser contratado, qual salário foi oferecido e quanto dinheiro cada clube decidiu — ou conseguiu — colocar no futebol.
Quando um clube em recuperação judicial consegue continuar fortalecendo seu elenco, enquanto dívidas anteriores são submetidas a condições especiais de pagamento, surge uma questão de equilíbrio competitivo.
O Vitória foi eliminado.
O Vasco avançou.
E avançar na Copa do Brasil significa muito mais que uma vaga na semifinal.
Representa premiação, bilheteria, exposição comercial e possibilidade de receitas adicionais.
Ou seja: resultado esportivo produz resultado financeiro.
E resultado financeiro pode novamente alimentar o futebol.
Forma-se um ciclo que precisa ser analisado com cuidado.
Recuperação judicial não pode significar proibição de competir
Existe, evidentemente, um contraponto fundamental.
Seria absurdo defender que um clube em recuperação judicial devesse simplesmente fechar seu departamento de futebol ou ser proibido de contratar qualquer jogador.
Se o Vasco perder completamente sua capacidade de competir, suas receitas também diminuem.
Menos receita significa menor capacidade de pagar credores.
A própria lógica da recuperação judicial depende da continuidade da atividade econômica.
No caso de um clube, essa atividade é justamente o futebol.
Portanto, a discussão não pode cair na simplificação de que clube endividado não pode contratar.
O problema é definir quanto pode investir enquanto suas dívidas antigas são renegociadas e qual fiscalização esportiva deve existir nesse período.
Hoje, essa fronteira permanece perigosamente nebulosa.
O Vasco agora busca mais R$ 150 milhões
O debate ganha ainda mais importância diante do novo empréstimo DIP em análise.
A operação pode chegar a R$ 150 milhões.
Ao mesmo tempo, avança o processo para alienação de 90% da nova SAF vascaína. A 777, antiga controladora, também informou à Justiça que não se opõe mais à reorganização e à futura venda depois de chegar a um acordo com o clube.
O Vasco tenta reconstruir sua estrutura financeira.
É legítimo.
Mas reconstruir uma empresa de futebol não pode significar ignorar seus efeitos sobre a competição.
Caso parte dos novos recursos seja destinada direta ou indiretamente à manutenção de uma estrutura esportiva mais cara, o impacto pode aparecer imediatamente no Campeonato Brasileiro, na Copa do Brasil e em qualquer competição disputada pelo clube.
É diferente de uma indústria que obtém financiamento para continuar produzindo.
No futebol, o dinheiro pode contratar o atacante que fará o gol contra um concorrente que escolheu não gastar porque precisava respeitar o próprio orçamento.
É exatamente essa peculiaridade que exige uma regulamentação própria.
O problema é maior que o Vasco
Transformar essa discussão em ataque ao Vasco seria perder a parte mais importante da história.
O Vasco apenas evidencia uma deficiência estrutural do futebol brasileiro.
Outros clubes atravessam ou já buscaram processos de recuperação judicial e extrajudicial.
Se o modelo continuar crescendo, o Campeonato Brasileiro poderá conviver cada vez mais com equipes disputando a mesma competição em situações financeiras completamente diferentes.
Algumas honrando integralmente contratos e obrigações.
Outras renegociando passivos por muitos anos.
E todas disputando os mesmos pontos, vagas e premiações.
Nesse cenário, a simples existência da recuperação judicial não deveria ser o problema.
A ausência de regras esportivas complementares talvez seja.
O futebol brasileiro precisa discutir mecanismos semelhantes aos existentes em modelos de controle financeiro de outras ligas: acompanhamento de gastos, sustentabilidade da folha salarial, relação entre receitas e despesas e fiscalização sobre novos endividamentos.
Não para impedir a recuperação de clubes históricos.
Mas para impedir que a recuperação econômica de um competidor produza uma distorção esportiva contra outro.
E quem fez a lição de casa?
Essa talvez seja a pergunta mais incômoda.
Qual incentivo existe para um clube controlar gastos, reduzir contratações e organizar suas finanças se outro competidor pode acumular dívidas, posteriormente renegociá-las e continuar investindo no mesmo campeonato?
Não se trata de defender que todos os credores sejam pagos imediatamente.
Nem seria economicamente realista.
Trata-se de evitar um sistema em que responsabilidade financeira eventualmente se transforme em desvantagem esportiva.
O futebol brasileiro precisa encontrar esse equilíbrio.
Porque uma coisa é salvar um clube.
Outra é criar um modelo no qual a conta da sobrevivência financeira possa, indiretamente, acabar sendo paga pelos adversários dentro de campo.




