Almada por Luiz Henrique tornou-se a mudança de rota mais difícil de explicar no planejamento recente do Flamengo. Thiago Almada era tratado como plano A para acrescentar criatividade ao meio-campo. Com a negociação travada e o River Plate encaminhando a contratação do argentino, a diretoria passou a concentrar esforços em Luiz Henrique, atacante do Zenit.

O problema não está na qualidade do brasileiro. Está na lógica de apresentar um jogador de características completamente diferentes como a alternativa seguinte.

Luiz Eduardo Baptista, o Bap, gosta de recorrer a metáforas para explicar decisões administrativas. A lógica defendida pelo presidente pode ser resumida da seguinte forma: quem entra numa loja precisando de um tênis não deveria sair de lá com uma calça.

A compra pode ser boa. A calça pode ser excelente, moderna e até estar num preço atrativo. Ainda assim, a necessidade original permanece sem solução.

É exatamente essa a impressão deixada pela mudança de prioridade do Flamengo.

Almada e Luiz Henrique resolvem problemas diferentes

Thiago Almada atua por dentro, aproxima os setores e pode exercer a função de meia de ligação. É um jogador capaz de receber entre as linhas, conduzir a bola e participar da construção ofensiva.

Luiz Henrique é um ponta veloz, forte fisicamente e agressivo no confronto individual. Pode desequilibrar partidas, atacar espaços e elevar consideravelmente o nível do ataque rubro-negro.

São dois grandes jogadores. Entretanto, não ocupam o mesmo espaço, não cumprem a mesma função e não corrigem a mesma carência.

O Flamengo tinha Almada como plano A, mas redirecionou suas forças depois de não receber uma resposta dentro do prazo esperado. A justificativa interna é que Leonardo Jardim pediu um meio-campista e um ponta, enquanto o crescimento de Samuel Lino atuando como camisa 10 permitiu essa mudança de rota. Luiz Henrique também teria aceitado rapidamente o projeto rubro-negro.

A explicação permite compreender a decisão, mas não elimina a dúvida.

Caso o Flamengo tenha concluído que Samuel Lino resolve definitivamente a função de meia, houve uma mudança no planejamento tático. Isso precisa ser assumido e explicado claramente.

O que não parece coerente é tratar Luiz Henrique como plano B de Almada, porque um não substitui aquilo que o outro entregaria ao time.

Desistir de Almada não elimina a carência

Abandonar a insistência pelo argentino é compreensível. O Flamengo chegou a oferecer o maior salário do elenco, mas não recebeu a resposta esperada.

O River Plate avançou por aproximadamente 20 milhões de euros por 50% dos direitos econômicos, enquanto a diretoria rubro-negra considerou que já havia chegado ao limite financeiro da operação.

Não faria sentido permanecer de joelhos por um atleta que demonstrava preferência por outro destino.

Entretanto, desistir do jogador não obriga o Flamengo a desistir da necessidade. A diretoria poderia procurar outro meia com características semelhantes e manter Luiz Henrique como alvo paralelo para a ponta.

Ao direcionar toda a força financeira para uma operação de aproximadamente 30 milhões de euros, além de cinco milhões em possíveis bônus, o clube transmite a sensação de procurar uma contratação de impacto para responder à torcida, mesmo que a lacuna original permaneça.

Luiz Henrique não é o problema

Luiz Henrique seria uma contratação de enorme qualidade. É um grande jogador, conhece o futebol brasileiro e também é desejado por boa parte da torcida.

O erro seria usar a aprovação popular ao nome do atacante para encerrar a frustração provocada pela perda de Almada.

A torcida pediu os dois justamente porque eles resolvem problemas diferentes. Entregar um e agir como se a outra necessidade tivesse desaparecido é tentar tapar o sol com a peneira.

A gestão Bap já ultrapassou R$ 1 bilhão em operações destinadas a contratar e manter jogadores, considerando direitos econômicos, luvas e intermediações. Quanto maior o investimento, maior é a obrigação de apresentar critério, continuidade e coerência.

Não basta contratar nomes fortes. É necessário construir um elenco que faça sentido dentro de campo.

Se Samuel Lino convenceu definitivamente como meia, a diretoria deve explicar que Luiz Henrique passou a ser prioridade para outra função. Se o Flamengo ainda considera necessária a contratação de um camisa 10, o atacante não pode ser apresentado como substituto de Almada.

Luiz Henrique é outra contratação, para outra posição e com outro objetivo.