Libertadores é isso. É guerra, é sangue, é amor, é paixão.
E o Flamengo parece ter esquecido disso durante boa parte da noite no Maracanã.
Depois de vencer o Independiente del Valle por 2 a 0 na altitude de Quito, o Rubro-Negro entrou em campo com uma vantagem confortável. Podia até perder por um gol de diferença e ainda assim estaria classificado. O cenário pedia controle, inteligência e paciência.
Mas o Flamengo transformou uma situação favorável em sofrimento.
A equipe esteve desorganizada em alguns momentos, permitiu espaços ao adversário e atacou muitas vezes com uma ansiedade que não combinava com quem tinha dois gols de vantagem. Era o Del Valle quem precisava correr riscos. Era o adversário quem deveria se expor.
O Flamengo precisava controlar.
Não controlou.
Aos 30 minutos do primeiro tempo, Djorkaeff Reasco abriu o placar para os equatorianos. O 1 a 0 ainda classificava o Flamengo, mas mudou completamente o jogo. O Del Valle passou a acreditar. O Flamengo passou a errar mais.
E aí voltou a aparecer uma característica perigosa deste time: a sensação de que, em determinados momentos, ele acredita que pode resolver qualquer partida quando quiser.
Na Libertadores, esse tipo de postura pode custar caro.
Jorginho talvez tenha sido o maior símbolo daquela noite complicada. Um jogador experiente, tecnicamente diferenciado e normalmente responsável por organizar o meio-campo acabou também envolvido na desorganização coletiva.
No segundo tempo, recebeu o segundo cartão amarelo e foi expulso.
Mas seria errado colocar a responsabilidade somente sobre ele.
O problema já existia antes.
Com dez jogadores e perdendo por 1 a 0, o Flamengo entrou no momento mais perigoso da eliminatória. O Del Valle precisava de apenas mais um gol para levar a decisão aos pênaltis e chegou a balançar novamente as redes, em lance anulado por impedimento.
Foi aí que o jogo virou sobrevivência.
E quando o Flamengo ficou com dez, apareceu um jogador a mais.
A torcida.
O time sofria.
O adversário pressionava.
Mas o Maracanã continuava cantando.
“Vamos, Flamengo!”
Milhares de vozes empurrando uma equipe que naquele momento precisava de força emocional tanto quanto precisava de futebol.
E ainda faltava um personagem.
Giorgian De Arrascaeta.
Desde 2019, ele aparece nos grandes momentos desta geração.
Mudam treinadores, companheiros e adversários.
Arrascaeta continua.
Aos 38 minutos do segundo tempo, Rossi lançou a bola para o ataque, o goleiro Quintana saiu mal e o uruguaio acreditou no lance até o fim. Cabeceou para a meta vazia e fez 1 a 1.
Ali acabou o sofrimento.
O Flamengo confirmou a classificação por 3 a 1 no placar agregado e avançou para enfrentar o Estudiantes na semifinal.
Existe algo simbólico nisso.
Na ida, Bruno Henrique abriu o caminho da vitória em Quito.
Na volta, Arrascaeta colocou o ponto final no Maracanã.
Dois jogadores acostumados a decisões aparecendo novamente quando o Flamengo mais precisava.
A classificação leva o clube à oitava semifinal de Libertadores de sua história e à quinta presença entre os quatro melhores da América nas últimas oito edições.
É um dado que mostra o tamanho do Flamengo no continente.
Mas também aumenta a responsabilidade.
Porque este time tem qualidade para conquistar novamente a América.
Tem elenco.
Tem experiência.
Tem jogadores decisivos.
Tem uma torcida capaz de transformar o Maracanã.
Só não pode acreditar que tudo isso torna qualquer jogo simples.
Contra o Del Valle, quase pagou caro por isso.
Arrascaeta evitou.




