Gabigol saiu da Arena MRV eliminado da Copa Sul-Americana, depois de marcar no tempo normal e desperdiçar sua cobrança na disputa de pênaltis. Mas uma declaração dada após a partida abriu novamente uma discussão que acompanha sua temporada.

Ao chegar a 20 gols em 2026, o atacante atribuiu a recuperação justamente à sequência que recebeu no Santos.

“Com sequência, tenho 20 e vou fazer mais”, afirmou.

A frase foi interpretada como uma nova referência ao período vivido no Cruzeiro, onde perdeu espaço durante 2025. Mas ela também levanta uma questão que vai além da relação com o clube mineiro.

Gabigol voltou a produzir números relevantes justamente no momento em que seu futuro para 2027 está completamente aberto.

O Santos gostaria de continuar contando com o atacante. O Cruzeiro possui seus direitos até dezembro de 2028. E o próprio Gabigol já admitiu publicamente que ainda tem vontade de vestir novamente a camisa do Flamengo.

São três caminhos diferentes.

E nenhum deles é simples.

Os 20 gols mostram uma recuperação real

A temporada no Santos não pode ser reduzida apenas à nostalgia envolvendo um jogador revelado na Vila Belmiro.

Há produção esportiva.

Gabigol chegou a 20 gols e nove assistências em 41 partidas oficiais pelo Santos em 2026. Isso significa participação direta em 29 gols ao longo da temporada.

A comparação com os dois anos anteriores ajuda a dimensionar a recuperação.

Em 2025, pelo Cruzeiro, foram 13 gols em 49 jogos. Em seu último ano no Flamengo, em 2024, terminou a temporada com oito gols.

A atual média no Santos está próxima de 0,49 gol por partida. No Cruzeiro, foi aproximadamente 0,27.

Isso não significa que jogos disputados sejam equivalentes a minutos em campo ou titularidades — justamente porque a quantidade de oportunidades é parte da discussão. Mas mostra uma mudança considerável na frequência com que Gabigol voltou a encontrar a rede.

Há também um marco simbólico.

Desde 2023, ainda pelo Flamengo, ele não alcançava 20 gols em uma única temporada. Naquele ano, foram 20 em 58 partidas. Em 2026, chegou ao mesmo número com 41 jogos.

Ainda está distante dos números extraordinários do auge rubro-negro — 43 gols em 2019, 27 em 2020 e 34 em 2021 —, mas a curva descendente dos últimos anos foi interrompida.

Gabigol voltou a ser um atacante de 20 gols.

A questão agora é onde poderá manter essa produção.

Santos oferece a sequência, mas enfrenta o problema financeiro

Existe uma contradição importante no cenário santista.

O Santos é justamente o clube onde Gabigol recuperou aquilo que mais reivindica: minutos, protagonismo e sequência.

Ao mesmo tempo, pode ser o clube com maior dificuldade para mantê-lo.

No início de setembro, o próprio atacante admitiu que uma permanência definitiva na Vila Belmiro seria complicada por questões financeiras. Ele está emprestado pelo Cruzeiro somente até dezembro e não existe uma opção de compra previamente fixada no acordo.

A eliminação para o Atlético-MG adicionou outro elemento ao problema.

Ao cair nas quartas da Sul-Americana, o Santos deixou de receber US$ 4,1 milhões referentes à premiação destinada aos semifinalistas. O clube já atravessa um cenário financeiro delicado e vinha tratando a competição continental também como uma oportunidade de aumentar receitas no segundo semestre.

Portanto, existe um cenário curioso.

Esportivamente, o Santos parece oferecer exatamente aquilo que Gabigol afirma precisar.

Financeiramente, talvez não consiga oferecer aquilo que seria necessário para tirá-lo definitivamente do Cruzeiro.

O Cruzeiro tem o contrato, mas a relação ficou mais complexa

Se nada mudar até dezembro, Gabigol precisa retornar ao Cruzeiro.

Seu vínculo com o clube mineiro termina apenas no final de 2028. Portanto, ao contrário do que aconteceu quando deixou o Flamengo, o atacante não estará livre no mercado.

Qualquer clube interessado precisará negociar com o Cruzeiro ou encontrar outra solução contratual.

E é aí que a declaração desta quarta-feira ganha peso.

Gabigol deixou o Cruzeiro justamente buscando mais espaço. Em 2025, marcou 13 vezes em 49 partidas, mas perdeu a titularidade ao longo da temporada e manifestou publicamente insatisfação com a falta de sequência.

Agora, ao alcançar 20 gols no Santos e voltar a destacar a palavra “sequência”, inevitavelmente recoloca aquela experiência em discussão.

O curioso é que o próprio jogador afirmou, apenas duas semanas atrás, que ainda acredita que sua história em Belo Horizonte possa funcionar.

Gabigol disse considerar o Cruzeiro um projeto que “ainda vai dar certo” e afirmou não se arrepender da escolha feita quando deixou o Flamengo.

Há, portanto, dois discursos que não necessariamente se anulam, mas mostram a dificuldade da situação.

Ele acredita no Cruzeiro.

Mas também acredita que voltou a marcar porque saiu de lá para jogar regularmente.

E onde entra o Flamengo?

O Flamengo voltou à história porque foi o próprio Gabigol quem abriu essa porta.

Em entrevista divulgada no início de setembro, o atacante foi perguntado diretamente sobre a possibilidade de retornar.

A resposta não deixou muita margem para interpretação: ele afirmou que tem vontade.

Disse ainda que o Flamengo “mexe” com ele, lembrou os seis anos de clube e reconheceu que não se sente confortável atuando contra o Rubro-Negro no Maracanã.

A declaração provocou imediatamente manifestações de torcedores rubro-negros nas redes pedindo uma nova passagem do atacante pelo clube. Também houve flamenguistas contrários à ideia, mostrando que a discussão está longe de ser consensual.

O vínculo emocional existe.

Mas existe uma diferença enorme entre querer Gabigol novamente no Flamengo e construir uma operação esportiva para que isso aconteça.

O Flamengo que Gabigol deixou já mudou

Quando Gabigol saiu no fim de 2024, uma das grandes discussões era justamente a disputa por espaço com Pedro.

Dois anos depois, o cenário ficou ainda mais competitivo.

Pedro atravessa uma temporada de protagonismo, tornou-se o maior artilheiro rubro-negro do século XXI e chegou a 177 gols pelo clube em agosto. O Flamengo também trabalha para ampliar seu contrato.

Bruno Henrique continua sendo utilizado como alternativa central e, em determinados jogos da Libertadores, ganhou a posição justamente pelas características que Leonardo Jardim procura na pressão sobre a saída adversária.

Além deles, o elenco ganhou opções jovens no segundo semestre, como Anthony Valencia e Joaquín Freitas, dentro de uma política de aumentar a profundidade ofensiva.

Isso cria uma pergunta que talvez seja mais importante do que simplesmente saber se Gabigol gostaria de retornar.

Onde ele jogaria?

A palavra “sequência” também é o maior obstáculo para uma volta

Esse é o ponto mais interessante de toda a discussão.

Gabigol atribui seus 20 gols justamente à sequência que recebeu.

Mas, se voltasse hoje ao Flamengo, não existiria garantia alguma dessa sequência.

Pedro disputa espaço no comando do ataque. Bruno Henrique continua sendo utilizado na função. Leonardo Jardim já mostrou disposição para escolher o atacante de acordo com as características de cada partida.

Gabigol poderia acrescentar qualidade ao elenco?

Os números de 2026 mostram que ele continua capaz de marcar gols.

Mas uma eventual contratação precisaria responder a uma pergunta diferente: o Flamengo teria espaço esportivo para oferecer aquilo que fez Gabigol voltar a render no Santos?

Porque contratá-lo para novamente disputar minutos, entrar em rodízio e passar períodos no banco poderia recriar exatamente o ambiente que ele diz ter prejudicado sua passagem pelo Cruzeiro.

E isso transforma a discussão.

A questão não é apenas se Gabigol ainda tem futebol para vestir a camisa do Flamengo.

É saber se o Flamengo atual precisa de Gabigol — e se o Flamengo atual seria o melhor lugar para este Gabigol.

Um retorno também dependeria do Cruzeiro

Existe ainda uma barreira que a nostalgia costuma esconder.

Gabigol não poderá simplesmente escolher o Flamengo em janeiro.

O Cruzeiro tem contrato com o atacante até dezembro de 2028.

Caso o Rubro-Negro algum dia queira transformá-lo novamente em jogador do clube, seria necessária uma negociação envolvendo valores, empréstimo, rescisão ou outra composição com a equipe mineira.

Não existe, até o momento, informação de negociação em andamento entre Flamengo e Cruzeiro por Gabigol.

O que existe é uma combinação que naturalmente alimenta o debate: o atacante voltou a fazer gols, seu futuro no Santos é financeiramente incerto, sua relação com o Cruzeiro permanece cheia de interrogações e ele próprio declarou que gostaria de voltar ao Flamengo.

É suficiente para discutir a hipótese.

Não para tratá-la como negociação.