Quando Flamengo e Independiente del Valle entrarem no Maracanã nesta quinta-feira, a disputa não valerá apenas uma vaga entre os quatro melhores times da Libertadores de 2026.

O Flamengo estará diante da possibilidade de confirmar uma transformação histórica na relação do clube com a principal competição da América do Sul.

Se fizer valer a vantagem de 2 a 0 construída em Quito, o Rubro-Negro alcançará a oitava semifinal de Libertadores de sua história.

O número, sozinho, já é relevante.

Mas é quando a história é dividida em dois períodos que ele ganha outra dimensão.

As três primeiras semifinais aconteceram em 1981, 1982 e 1984.

Depois disso, passaram-se 35 anos até o Flamengo voltar a essa fase, em 2019.

Agora, caso confirme a classificação nesta noite, serão cinco semifinais entre 2019 e 2026.

Ou seja: em apenas oito edições, o Flamengo poderá ter chegado mais vezes às semifinais do que em toda a sua história anterior na competição.

É uma mudança radical de patamar continental.

As primeiras semifinais

A relação começou justamente na campanha mais importante da história rubro-negra até então.

Em 1981, a Libertadores tinha um formato completamente diferente do atual.

Depois da primeira fase, os classificados eram divididos em grupos semifinais. O Flamengo caiu ao lado de Deportivo Cali e Jorge Wilstermann.

O desempenho foi perfeito.

Foram quatro vitórias em quatro jogos, 10 gols marcados e apenas dois sofridos.

O Flamengo venceu o Deportivo Cali duas vezes, por 1 a 0 na Colômbia e 3 a 0 no Rio, além de superar o Jorge Wilstermann por 2 a 1 na Bolívia e 4 a 1 no Brasil.

A campanha levou o time de Zico, Júnior, Leandro, Adílio, Nunes e companhia à final contra o Cobreloa.

O desfecho entrou definitivamente para a história: título continental e, posteriormente, conquista mundial sobre o Liverpool.

O campeão voltou direto à semifinal

Em 1982 aconteceu algo praticamente impossível de imaginar no formato atual.

Como campeão da edição anterior, o Flamengo entrou diretamente na fase semifinal.

O grupo tinha River Plate e Peñarol.

Contra o River, foram duas vitórias impressionantes: 3 a 0 no Monumental de Núñez e 4 a 2 no Rio de Janeiro.

O problema foi o Peñarol.

Os uruguaios venceram os dois confrontos por 1 a 0 e terminaram em primeiro lugar no grupo, avançando à decisão e posteriormente conquistando o título.

O Flamengo ficou entre os melhores do continente novamente, mas não conseguiu defender a taça.

Em 1984, eliminação no detalhe

Dois anos depois, o Flamengo chegou novamente à fase semifinal.

Desta vez, encontrou Grêmio e Universidad de Los Andes.

A campanha terminou com Flamengo e Grêmio empatados na liderança do grupo, ambos com três vitórias e uma derrota.

Houve então um jogo extra em São Paulo.

O duelo terminou 0 a 0.

Como o regulamento utilizava o saldo construído anteriormente no grupo para definir o classificado após o empate, o Grêmio avançou para a final.

Aquele jogo de 19 de julho de 1984 acabou assumindo um significado que ninguém poderia imaginar na época.

Seria a última semifinal de Libertadores disputada pelo Flamengo por 35 anos.

Trinta e cinco anos esperando

Entre 1985 e 2018, o Flamengo disputou várias edições da Libertadores, viveu eliminações marcantes e chegou algumas vezes perto das fases finais.

Mas nunca voltou à semifinal.

Passou pelas quartas em 1991 e 1993 sem conseguir avançar.

Sofreu eliminações traumáticas em diferentes períodos.

Teve campanhas fortes que terminaram antes da hora.

E viu a Libertadores crescer em importância justamente enquanto o clube tinha dificuldade para voltar ao grupo dos quatro melhores.

Até 2019.

Aquele ano representou muito mais do que simplesmente o segundo título continental do Flamengo.

Representou o início de uma nova frequência.

2019 mudou a relação

O Flamengo eliminou o Internacional nas quartas de final e chegou à semifinal pela primeira vez desde 1984.

O adversário era o Grêmio.

No primeiro jogo, em Porto Alegre, empate por 1 a 1.

No Maracanã, aconteceu uma das noites mais marcantes da história recente do clube.

Flamengo 5 a 0.

Bruno Henrique abriu o placar. Gabigol marcou duas vezes. Pablo Marí e Rodrigo Caio completaram a goleada.

O agregado terminou em 6 a 1.

Depois vieram River Plate, Lima, os dois gols de Gabigol nos minutos finais e o fim de uma espera de 38 anos pelo título.

Só que 2019 não seria uma exceção.

Viraria o começo de um ciclo.

Quatro semifinais modernas, quatro finais

Esse talvez seja o dado mais impressionante do levantamento.

Desde que voltou à semifinal em 2019, todas as vezes em que o Flamengo chegou entre os quatro melhores, também chegou à decisão.

Em 2019, passou pelo Grêmio.

Em 2021, encontrou o Barcelona de Guayaquil. Venceu 2 a 0 no Maracanã e 2 a 0 no Equador, avançando com 4 a 0 no agregado.

Em 2022, foi ainda mais dominante.

O Flamengo fez 4 a 0 no Vélez Sarsfield em Buenos Aires, com três gols de Pedro, e depois venceu por 2 a 1 no Maracanã.

Novamente: 6 a 1 no agregado.

Em 2025, a história foi completamente diferente.

Nada de goleada.

Contra o Racing, Carrascal marcou no fim da partida de ida e garantiu o 1 a 0 no Maracanã.

Na Argentina, mesmo atuando parte do segundo tempo com um jogador a menos, o Flamengo segurou o 0 a 0 e avançou.

Quatro semifinais.

Quatro classificações.

Quatro finais.

E três títulos.

O Flamengo desde 2019

A sequência mostra com clareza como a Libertadores passou a ocupar outro lugar na história recente do clube:

Ano Até onde chegou Resultado 2019 Final Campeão 2020 Oitavas Eliminado pelo Racing 2021 Final Vice-campeão 2022 Final Campeão 2023 Oitavas Eliminado pelo Olimpia 2024 Quartas Eliminado pelo Peñarol 2025 Final Campeão 2026 Quartas Pode chegar à semifinal hoje

Em sete edições completas entre 2019 e 2025, o Flamengo chegou a quatro finais e conquistou três Libertadores.

As únicas temporadas em que não alcançou a semifinal foram 2020, 2023 e 2024.

Isso significa que, se passar pelo Del Valle, o Flamengo terá chegado à semifinal em cinco das últimas oito Libertadores.

Um aproveitamento de presença entre os quatro melhores de 62,5% nesse período.

Mais semifinais em oito anos do que nos 38 anteriores

Aqui está talvez a maneira mais clara de dimensionar a mudança.

Da estreia do Flamengo na Libertadores, em 1981, até o fim de 2018, o clube chegou à fase semifinal três vezes.

Todas entre 1981 e 1984.

Entre 2019 e 2026, poderá chegar cinco vezes.

Não se trata apenas de ganhar títulos.

Trata-se de frequência.

Durante décadas, uma semifinal de Libertadores era um acontecimento raro para o Flamengo.

Na era atual, passou a ser uma etapa que aparece repetidamente no calendário rubro-negro.

E existe uma diferença importante entre ter tradição histórica e construir presença contínua.

O Flamengo sempre carregou o peso de 1981.

O que começou em 2019 foi outra coisa: a construção de uma geração que passou a disputar a Libertadores até suas últimas semanas quase todos os anos.

O jogo de hoje pode acrescentar outro capítulo

O Flamengo entra no Maracanã com uma vantagem importante.

A vitória por 2 a 0 em Quito, com gols de Bruno Henrique e Léo Pereira, permite ao time avançar com vitória, empate ou até derrota por um gol.

Uma derrota por dois leva a decisão aos pênaltis.

O Independiente del Valle precisa vencer por três ou mais para se classificar diretamente.

Quem passar encontrará o Estudiantes na semifinal.

Mas antes de pensar nos argentinos, existe uma história para ser confirmada no Maracanã.

O Flamengo está a um jogo de transformar sete semifinais em oito.

E, principalmente, de colocar cinco delas dentro de um período de apenas oito anos.