O Flamengo tem uma das categorias de base mais fortes do futebol sul-americano. Investe em estrutura, profissionais, captação e formação. Conquista títulos importantes e apresenta jovens que rapidamente despertam o interesse de clubes brasileiros e europeus.

O problema aparece quando esses jogadores chegam à porta do elenco profissional.

A sensação é de que falta um plano claro. O jovem é promovido, recebe enorme exposição, passa a ser tratado como joia e, após algumas atuações abaixo da expectativa, deixa de ser prioridade. Depois, começa um ciclo de treinamentos separados, retorno ao sub-20, empréstimos e negociações conduzidas num momento de desvalorização.

As situações de Lorran e Rayan Lucas são diferentes, mas expõem o mesmo problema: o Flamengo ainda precisa melhorar muito a forma como administra o patrimônio produzido no Ninho do Urubu.

Flamengo parece não saber o que fazer com Lorran

No caso de Lorran, eu acredito que o Flamengo deveria oferecer uma oportunidade verdadeira antes de pensar em outra saída.

O jogador foi emprestado ao Pisa em 2025. O acordo previa uma compra obrigatória caso determinadas metas fossem alcançadas, mas ele teve apenas dez participações pelo clube italiano, começou somente uma partida como titular e retornou ao Brasil sem que as condições fossem cumpridas. Ao voltar, a tendência inicial da diretoria era procurar uma nova negociação.

O próprio empréstimo ao Pisa foi uma experiência frustrante. Lorran saiu do Flamengo precisando de minutos, mas encontrou justamente o contrário. Recebeu poucas oportunidades e não teve continuidade suficiente para se desenvolver ou recuperar a confiança.

Agora, quando retorna e começa a demonstrar novamente seu talento, o Flamengo volta a conversar sobre sua saída, desta vez com o Granada, da Espanha. Ainda não existe proposta oficial, mas os clubes discutem uma possível transferência, com preferência rubro-negra por uma venda definitiva acompanhada da manutenção de um percentual futuro.

É difícil compreender essa pressa.

Lorran marcou durante a intertemporada contra Lausanne e Olimpia. Depois, fez gol na goleada sobre a Chapecoense e participou da jogada que originou o gol diante do São Paulo. Não estamos falando apenas de uma promessa antiga vivendo da reputação da base. Estamos falando de um jogador que voltou e respondeu dentro de campo quando recebeu oportunidades.

Até Bruno Henrique defendeu publicamente sua permanência depois de receber uma assistência do jovem no amistoso contra o Olimpia.

Lorran não está pronto. Ainda precisa melhorar sua intensidade, tomada de decisão, comportamento sem a bola e regularidade. Mas essas deficiências não serão resolvidas com o jogador entrando e saindo dos planos a cada poucos meses.

O Flamengo parece querer que o jovem volte de empréstimo completamente preparado, valorizado e pronto para decidir partidas. Isso raramente acontece. Formação exige paciência, minutos e tolerância com erros.

Rayan Lucas sai sem dinheiro para o Flamengo

A situação de Rayan Lucas provoca outra preocupação.

O Flamengo acertou sua transferência para o Alverca, de Portugal, sem receber compensação financeira imediata. O clube manteve 50% dos direitos econômicos do volante, apostando numa eventual valorização e numa venda futura. Rayan assinará contrato de quatro anos com a equipe portuguesa.

Eu não consigo enxergar grande vantagem nesse modelo.

Na prática, o Flamengo entrega metade dos direitos de um jogador formado durante cerca de dez anos no clube e não recebe nada agora. Passa a depender do desempenho de Rayan, da utilização no Alverca e da capacidade do clube português de realizar uma boa venda no futuro.

Pode funcionar? Pode.

Rayan pode tornar-se titular, destacar-se em Portugal e ser vendido por um valor relevante. Nesse cenário, o Flamengo receberia metade da operação. Mas também existe a possibilidade de ele não se valorizar, cumprir o contrato e sair sem que o Rubro-Negro tenha qualquer retorno significativo.

O volante passou a última temporada emprestado ao Sporting, onde disputou 23 partidas, começou 20 como titular e deu uma assistência. O próprio Sporting confirmou sua contratação temporária para a equipe B em junho de 2025.

Portanto, não se trata de um jogador que ficou completamente parado. Ele acumulou experiência, atuou com frequência em Portugal e voltou ao Flamengo. Mesmo assim, praticamente não teve espaço com Leonardo Jardim e não foi relacionado após a interrupção do calendário para a Copa do Mundo.

Caso não estivesse nos planos, tudo bem negociar. Nenhum clube é obrigado a manter todos os jovens formados na base. O que precisa ser questionado é a qualidade da negociação.

A base não pode ser administrada no improviso

O Flamengo não precisa transformar todos os jogadores do Ninho em titulares. Isso seria impossível. Alguns serão aproveitados, outros emprestados e muitos precisarão ser vendidos.

Mas cada atleta necessita de um projeto.

Lorran deveria receber uma sequência real antes de uma decisão definitiva. Não dois jogos, uma oportunidade isolada ou alguns minutos quando o elenco estiver desfalcado. Uma sequência que permita avaliar se ele pode ou não ajudar o time principal.

Rayan, caso realmente não tivesse espaço, deveria ser negociado de uma forma que trouxesse alguma receita imediata, mesmo que pequena, além da manutenção de uma porcentagem futura.

Entregar 50% sem receber nada agora não pode ser tratado como uma grande operação. É uma aposta criada porque o clube não encontrou uma solução melhor.