Déficit do Flamengo gera cobrança à gestão BAP
O déficit de R$ 33,8 milhões apresentado pelo Flamengo no primeiro semestre de 2026 provocou uma nova movimentação política nos bastidores da Gávea. Um grupo formado por 12 conselheiros protocolou documentos nos Conselhos Deliberativo e Fiscal cobrando maior transparência sobre a execução do orçamento do clube.
Os documentos foram apresentados depois da divulgação das demonstrações financeiras referentes ao segundo trimestre. Os conselheiros querem que o orçamento anual de 2026 volte a ser disponibilizado publicamente e pedem explicações sobre a diferença entre os valores previstos e os resultados efetivamente alcançados.
O grupo também solicitou que seja avaliada a aplicação do artigo 146 do Estatuto do Flamengo, que prevê a suspensão da autonomia do Conselho Diretor para celebrar contratos em determinadas situações de desequilíbrio orçamentário.
Entretanto, é importante destacar: a autonomia da diretoria não foi suspensa. O que existe, neste momento, é um pedido para que os órgãos internos analisem se as condições previstas no Estatuto foram ou não atingidas.
Conselheiros cobram divulgação do orçamento
Um dos documentos foi encaminhado ao presidente do Conselho Deliberativo, Ricardo Lomba. Os conselheiros alegam falta de transparência na divulgação dos relatórios de acompanhamento da execução orçamentária.
O segundo documento foi dirigido ao presidente do Conselho Fiscal, Paulo Roberto Gomes. Nele, o grupo solicita que a diretoria seja intimada a apresentar o orçamento de 2026 no prazo de 48 horas.
A principal questão levantada é que o artigo 146 do Estatuto prevê restrições à autonomia da direção caso o déficit acumulado seja superior, em mais de 3%, ao resultado previsto no orçamento aprovado.
Como o orçamento completo não está publicamente disponível, ainda não é possível afirmar que esse limite foi ultrapassado. Essa é justamente uma das razões apresentadas pelos conselheiros para exigir a abertura dos números.
Flamengo explica o déficit de R$ 33,8 milhões
De acordo com as demonstrações financeiras, o Flamengo encerrou o primeiro semestre com receita de aproximadamente R$ 839 milhões e déficit acumulado de R$ 33,8 milhões.
A direção atribui grande parte do resultado negativo à amortização contábil de R$ 192,4 milhões relacionada aos direitos económicos dos jogadores, incluindo os atletas contratados na janela de janeiro.
A amortização é o reconhecimento contabilístico do valor investido nos jogadores ao longo do período dos seus contratos. Portanto, o lançamento dessa despesa no balanço não significa, necessariamente, que R$ 192,4 milhões tenham saído do caixa do clube naquele momento.
Segundo o Flamengo, o resultado negativo representa uma consequência natural do maior investimento em elenco já realizado pelo clube.
Investimento recorde em contratações
O Flamengo investiu R$ 495,2 milhões na aquisição de direitos de jogadores durante o primeiro semestre de 2026. A maior operação foi a contratação de Lucas Paquetá junto ao West Ham, por R$ 315,7 milhões, considerando também custos de intermediação.
O clube também investiu R$ 81,9 milhões em Vitão, contratado ao Internacional, e R$ 34,7 milhões no goleiro Andrew, que defendia o Gil Vicente.
Por outro lado, as vendas de atletas renderam R$ 106,9 milhões no período, quase o dobro dos R$ 54,5 milhões registados no mesmo período do ano anterior.
Déficit significa crise financeira?
O resultado negativo merece atenção, principalmente num momento em que o Flamengo continua negociando novas contratações milionárias. Porém, o déficit isoladamente não permite concluir que o clube atravessa uma crise financeira.
O Flamengo encerrou junho com R$ 127,8 milhões de caixa livre consolidado. O endividamento operacional líquido ficou em R$ 280,2 milhões, depois de uma redução de R$ 207,9 milhões em relação ao pico alcançado no final de março.
A dívida líquida relacionada a atletas encerrou o segundo trimestre em R$ 304 milhões. A própria direção considera que o caixa permanece num nível seguro para garantir o funcionamento das operações do clube.
O ponto central da discussão, portanto, não é apenas a existência do déficit. A cobrança dos conselheiros está relacionada principalmente à falta de acesso público ao orçamento e à necessidade de verificar se os gastos realizados estão dentro dos limites aprovados internamente.
Gestão ainda não se manifestou
A reportagem do ge procurou o Flamengo, Ricardo Lomba e Paulo Roberto Gomes. O clube e os dirigentes não quiseram comentar os documentos protocolados pelos conselheiros.
Sem a divulgação completa do orçamento, permanece a dúvida sobre a comparação entre o resultado previsto pela gestão e o déficit registado no primeiro semestre.
A próxima movimentação dependerá da análise dos Conselhos Deliberativo e Fiscal, que deverão decidir se solicitam novas informações, se abrem algum procedimento de fiscalização ou se consideram suficientes as justificativas apresentadas pela direção.




