Mais de 60 mil torcedores compareceram ao Maracanã na segunda-feira (26), mesmo depois da dolorosa eliminação do Flamengo para o Estudiantes na Libertadores. Foram exatamente 60.624 pessoas que, mais uma vez, demonstraram que o apoio da torcida não depende apenas de vitórias. O Flamengo precisava responder dentro de campo. Venceu por 3 a 2, recuperou a liderança do Brasileirão, mas deixou uma pergunta: jogar dessa maneira será suficiente para conquistar o título?

A posse de bola não contou toda a história

No primeiro tempo, o Flamengo passou boa parte do jogo com a bola nos pés, mas nem sempre soube transformá-la em criatividade. A equipe avançava, pressionava e ocupava o campo ofensivo, enquanto deixava espaços perigosos às suas costas.

O primeiro castigo veio cedo. Bernard aproveitou um contra-ataque e marcou para o Atlético-MG aos seis minutos. A defesa rubro-negra foi surpreendida, expondo um problema que não pode ser ignorado por uma equipe que pretende terminar o campeonato na primeira colocação.

Mesmo desorganizado em vários momentos, o Flamengo insistiu. Gonzalo Plata empatou aos 33 minutos e Arrascaeta virou aos 40. Na minha avaliação, houve participação decisiva das falhas de Gabriel Delfim nesses lances. O Flamengo teve mérito em continuar atacando, mas isso não apaga suas deficiências.

Vencer não autoriza perder o controle

A equipe voltou do intervalo em vantagem. Era a oportunidade de controlar o ritmo, administrar melhor os espaços e obrigar o adversário a assumir riscos.

O que vimos, porém, foi um Flamengo que continuou procurando o ataque sem o equilíbrio necessário. A equipe parecia querer resolver tudo imediatamente. Jogadores experientes demonstravam ansiedade, enquanto o Atlético-MG encontrava caminhos para ameaçar a defesa.

Aos 13 minutos, Renan Lodi empatou. O segundo gol mineiro confirmou que a vantagem construída no primeiro tempo não significava domínio seguro da partida.

A responsabilidade de Leonardo Jardim

É impossível analisar esse jogo sem discutir as decisões do treinador. Na minha avaliação, Jardim errou nas substituições e na maneira como reorganizou a equipe. Jogadores passaram a ocupar funções que não favoreceram o funcionamento coletivo, e o Flamengo perdeu referências justamente quando precisava de estabilidade.

Não faltou vontade aos atletas. Pelo contrário: houve entrega, insistência e desejo de superar a eliminação continental. Mas intensidade sem organização pode transformar um time tecnicamente superior numa equipe vulnerável.

Não basta colocar mais jogadores à frente. É preciso saber atacar, proteger a defesa, escolher o momento de acelerar e reconhecer quando o controle da bola é mais importante do que a pressa.

Carrascal salvou uma noite de muitos erros

Quando o empate parecia definitivo, Renan Lodi cometeu um pênalti claro sobre Léo Pereira nos acréscimos. Carrascal assumiu a cobrança e garantiu os três pontos.

O colombiano cresce em protagonismo e demonstra personalidade nos momentos difíceis. Sua contribuição na criação ofensiva merece reconhecimento, especialmente quando atua centralizado. Infelizmente, estará suspenso contra o Vasco, depois de receber o terceiro cartão amarelo.

O pênalti foi legítimo, a vitória foi importante e os jogadores merecem reconhecimento por não desistirem. Mas o resultado não pode transformar uma atuação cheia de problemas em exemplo de organização.

Uma estrutura de campeão exige futebol de campeão

O Flamengo possui jogadores valorizados, salários elevados, um centro de treinamento moderno e uma estrutura profissional que muitos clubes gostariam de ter. Conta ainda com uma torcida capaz de reunir mais de 60 mil pessoas poucos dias depois de uma eliminação traumática.

Tudo isso oferece condições para vencer. Nada disso compra vitórias automaticamente.

É justamente por possuir tantos recursos que o Flamengo precisa apresentar mais consistência. O elenco tem qualidade para jogar com inteligência, reduzir os riscos defensivos e controlar partidas sem depender de um lance salvador nos acréscimos.

O próximo compromisso será contra o Vasco. Leonardo Jardim terá mais uma oportunidade de corrigir os problemas e preparar uma equipe capaz de competir com maturidade.

Os três pontos foram fundamentais. A liderança está nas mãos do Flamengo. Agora é preciso mostrar, dentro de campo, que o time sabe o que fazer com ela.