O FLAMENGO PODE SER CAMPEÃO E AINDA ASSIM TER FRACASSADO?
O Flamengo pode terminar 2026 levantando a taça do Campeonato Brasileiro. É uma possibilidade real, afinal, o clube lidera a competição com 67 pontos, um à frente do Palmeiras, a sete rodadas do encerramento. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita desde já: se o Flamengo for campeão brasileiro, isso será suficiente para considerar acertado todo o planejamento esportivo da temporada?
A resposta exige mais do que olhar para a classificação.
O Campeonato Brasileiro é uma das competições mais difíceis do futebol sul-americano. Exige regularidade, elenco qualificado e capacidade de suportar uma sequência longa de jogos. Conquistá-lo jamais seria algo pequeno, muito menos um fracasso. Mas reconhecer a importância de um título não significa ignorar os erros cometidos ao longo do caminho.
E é justamente essa distinção que a direção rubro-negra precisa compreender.
O Flamengo começou a temporada como atual campeão brasileiro e da Libertadores. Tinha um treinador identificado com o clube, vencedor de cinco títulos no comando profissional e responsável por um dos períodos mais vitoriosos de sua história recente. Ainda assim, Bap e a direção de futebol decidiram interromper o trabalho de Filipe Luís em março, depois de um início de ano marcado por resultados ruins.
A contratação de Leonardo Jardim representou uma mudança de comando e, naturalmente, criou novas expectativas. A diretoria fez uma escolha e assumiu a responsabilidade por ela. Não basta, portanto, avaliar se Jardim conquistará o Brasileirão. É necessário perguntar se a mudança realmente fez o Flamengo evoluir.
Na Copa Libertadores, a resposta ficou comprometida pela eliminação diante do Estudiantes. O Flamengo não conseguiu marcar um único gol durante os 180 minutos da semifinal e, mesmo jogando boa parte do segundo tempo da partida decisiva com um atleta a mais, não encontrou soluções para superar a defesa argentina.
A derrota nos pênaltis foi apenas o capítulo final de uma classificação que o Flamengo deixou escapar durante os dois confrontos.
Evidentemente, Leonardo Jardim tem sua parcela de responsabilidade. As escolhas de escalação, as substituições e a capacidade de modificar uma partida fazem parte do trabalho de qualquer treinador. Mas limitar toda a análise ao técnico seria uma maneira conveniente de retirar o foco de quem construiu e administra o projeto.
José Boto é responsável pela condução do departamento de futebol. Bap, como presidente, responde pelas principais decisões estratégicas do clube. Foram eles que conduziram a mudança de treinador e sustentaram o caminho escolhido.
Não estamos falando de uma equipe sem recursos, obrigada a disputar títulos com um elenco limitado. O Flamengo dispõe de uma das estruturas mais fortes do continente e investiu valores expressivos para competir no mais alto nível.
O dinheiro, por si só, não garante vitória. Mas aumenta a responsabilidade de quem decide como utilizá-lo.
Também seria injusto retirar dos jogadores sua parcela de cobrança. Um elenco experiente e tecnicamente qualificado precisa apresentar respostas nos momentos decisivos. Contra o Estudiantes, faltaram eficiência, criatividade e capacidade de transformar superioridade numérica em oportunidades reais de gol. Os erros nas cobranças de pênaltis agravaram uma noite que já havia sido insuficiente coletivamente.
É nesse contexto que a lembrança de Filipe Luís voltou ao debate. Não porque suas vitórias no Monaco estejam provocando a crise de Jardim, mas porque as eliminações do Flamengo levam o torcedor a revisitar a decisão de demitir um treinador que havia conquistado tanto em tão pouco tempo.
Filipe Luís também teve dificuldades. Perdeu decisões no início de 2026 e não poderia receber garantia de resultados futuros apenas pelo que havia conquistado anteriormente. Entretanto, seu histórico vitorioso torna legítimo questionar se a interrupção daquele projeto foi a melhor escolha.
O Flamengo precisa aprender a avaliar planejamento para além de uma taça ou de uma eliminação isolada. Uma gestão esportiva consistente deve ser examinada pela evolução da equipe, pela coerência das contratações, pela utilização do elenco, pela qualidade das decisões e pela capacidade de construir resultados sustentáveis.
Se Leonardo Jardim conquistar o Brasileirão, terá um mérito importante. E esse mérito precisará ser reconhecido sem reservas. Mas a conquista não poderá apagar automaticamente a eliminação continental, os problemas de desempenho e as perguntas sobre o rumo escolhido pela diretoria.
Da mesma forma, terminar a temporada sem títulos não significaria que absolutamente tudo foi feito de maneira errada. O futebol exige uma avaliação mais profunda do que simplesmente contar troféus.
O que não pode acontecer é a direção utilizar um eventual título nacional como argumento para encerrar qualquer discussão sobre suas escolhas.
A torcida do Flamengo não cobra apenas vitórias. Cobra também a capacidade de transformar investimento, estrutura e tradição em um projeto esportivo coerente.
O Brasileirão ainda está em disputa. O Flamengo continua dependendo de suas próprias respostas dentro de campo para transformar a liderança em conquista. Mas, independentemente do resultado final, Bap, José Boto e Leonardo Jardim terão de prestar contas sobre o trabalho realizado em 2026.
Porque um título pode coroar uma temporada. Não necessariamente absolve todas as decisões tomadas para chegar até ele.








