Flamengo está em crise — e reforços não podem esconder o que está podre
O Flamengo atravessa um dos momentos mais preocupantes da temporada. Desde a sequência negativa do início do ano, que terminou com a saída de Filipe Luís, o torcedor não via uma equipe tão perdida, tão desconectada de sua própria identidade e tão distante do futebol que deveria apresentar.
Sob o comando de Leonardo Jardim, o Flamengo vive sua pior fase.
Não se trata apenas de resultados. O problema é muito mais profundo. O que se vê dentro de campo é um futebol pobre, medíocre, inoperante, lento e sem qualquer sinal de evolução. Um time sem criatividade, sem intensidade, sem variações e, principalmente, sem convicção.
O Flamengo parece não saber o que fazer com a bola. Também não demonstra segurança quando precisa jogar sem ela.
Desde o retorno das competições após a Copa do Mundo, foram uma vitória e dois empates. Entretanto, o desempenho preocupa mais do que os números. Contra São Paulo e Internacional, a equipe apresentou dificuldades para construir, pressionar, acelerar o jogo e controlar adversários que tecnicamente possuem menos recursos.
É um Flamengo que possui jogadores, estrutura, investimento e capacidade técnica, mas que dentro de campo se comporta como uma equipe comum.
Um time que perdeu a própria identidade
A declaração de Guillermo Varela após o empate contra o Internacional foi um dos sinais mais importantes do momento.
O lateral afirmou que o problema já não estava apenas nos resultados ou nos pontos perdidos, mas na maneira como o time estava jogando. Também disse que o Flamengo precisava voltar às suas bases e recuperar a característica de pressionar os adversários com e sem a bola.
Varela não atacou diretamente Leonardo Jardim. Não afirmou que o elenco abandonou o treinador. Mas suas palavras não podem ser tratadas como uma declaração vazia.
Quando um jogador do elenco afirma publicamente que a equipe perdeu sua essência, existe um problema.
O Flamengo que conquistou títulos recentes era agressivo. Pressionava, sufocava e tentava controlar o adversário. O Flamengo atual recua, permite que equipes inferiores cresçam nas partidas e apresenta uma enorme dificuldade para recuperar a bola no campo ofensivo.
O time perdeu movimentos que já dominava. Perdeu a saída de bola segura. Perdeu intensidade. Perdeu confiança.
E, pior: parece estar perdendo tempo.
A reação de Alex Sandro também preocupa
Durante o jogo contra o Internacional, a reação de Alex Sandro ao ser substituído chamou atenção.
Estamos falando de um jogador reconhecido pela postura profissional, com uma carreira construída em grandes clubes e passagens importantes pela Seleção Brasileira. Não é um jovem sem experiência que se deixa dominar facilmente pela emoção de uma partida.
O gesto de contrariedade, sozinho, não prova que exista uma rebelião contra o treinador. Seria irresponsável transformar uma imagem em prova definitiva de rompimento.
Mas o episódio ganha importância quando colocado ao lado das declarações dos jogadores, do futebol apresentado e das informações sobre desconforto interno.
Quando atletas experientes começam a demonstrar insatisfação, a diretoria precisa observar.
Não significa que o elenco queira derrubar Leonardo Jardim. Significa que pode existir uma perda de confiança no trabalho realizado.
E isso, para qualquer treinador, é gravíssimo.
Há insatisfação com os treinamentos
Segundo o jornalista Mauro Cezar Pereira, não existe um movimento dos jogadores para derrubar Leonardo Jardim nem uma rejeição pessoal ao treinador.
O que existe, conforme relatado pelo jornalista, é um desconforto entre integrantes do elenco com a queda da intensidade dos treinamentos e com um repertório técnico e tático considerado inferior ao trabalho apresentado anteriormente por Filipe Luís.
Essa diferença precisa ficar muito clara.
Não estamos acusando jogadores de fazer corpo mole. Não estamos afirmando que existe uma conspiração interna. Mas não podemos ignorar informações de que atletas experientes percebem um trabalho com pouca intensidade, poucas variações e dificuldade para se adaptar às características do grupo.
Mauro Cezar também apontou uma possível incompatibilidade entre o futebol mais reativo pretendido por Jardim e o perfil de um elenco montado para controlar partidas, ter a bola e pressionar o adversário no próprio campo.
Essa incompatibilidade é visível.
O Flamengo possui jogadores técnicos, mas atua como se dependesse apenas de velocidade e contra-ataques. Quando encontra um adversário fechado, fica sem respostas. Quando precisa assumir o controle, torna-se previsível. Quando sofre um gol, parece não possuir um plano seguro para reagir.
O time está taticamente confuso e emocionalmente abatido.
Leonardo Jardim precisa apresentar soluções
Leonardo Jardim voltou a pedir reforços. O treinador afirmou que precisa de jogadores criativos, rápidos na execução e capazes de desequilibrar diante de equipes que defendem com linhas baixas. Também declarou que apenas Arrascaeta e Samuel Lino conseguiram realizar esses movimentos recentemente.
O pedido pode ser legítimo. Todo grande clube precisa melhorar seu elenco.
Mas o Flamengo já possui um dos grupos mais caros e qualificados das Américas. Jardim não recebeu um elenco desmontado, pobre ou incapaz. Recebeu jogadores campeões, atletas de seleção e opções suficientes para apresentar um futebol muito melhor.
É dever do treinador corrigir o time que possui.
Não é aceitável que a única solução apresentada para os problemas seja entrar no mercado. Não é aceitável pedir novos jogadores antes de conseguir organizar aqueles que já estão no Ninho do Urubu.
Um grande treinador não pode depender de uma contratação milionária para fazer o básico funcionar.
Thiago Almada seria um grande reforço. Luiz Henrique também poderia contribuir muito. Mas nenhum dos dois resolverá sozinho a falta de intensidade, a desorganização defensiva, a saída de bola defeituosa e a ausência de mecanismos coletivos.
Esses problemas também passam por treinamento.
O mercado não pode virar uma cortina de fumaça
O Flamengo aguarda uma resposta de Thiago Almada entre os dias 3 e 4 de agosto. O argentino é a prioridade da janela, enquanto Luiz Henrique, atualmente no Zenit, continua sendo monitorado.
Uma investida oficial por Luiz Henrique dependerá do impacto financeiro da operação por Almada. O Zenit pretende receber aproximadamente 30 milhões de euros pelo atacante e, até agora, o Flamengo apenas consultou as condições do negócio.
São dois excelentes jogadores.
Almada aumentaria a criatividade. Luiz Henrique acrescentaria força, velocidade e capacidade de vencer duelos individuais. Esportivamente, os dois poderiam elevar o nível do elenco.
Mas as negociações não podem virar cortina de fumaça.
A diretoria não pode utilizar nomes de impacto no mercado para desviar a atenção daquilo que acontece dentro do Flamengo. Não adianta anunciar contratações, publicar fotografias com camisas e produzir vídeos cinematográficos enquanto o futebol continua pobre.
Não adianta iluminar a fachada quando existem problemas graves dentro da casa.
O mercado pode fortalecer o time, mas não pode esconder a crise.
O intervalo precisa produzir respostas
O Flamengo terá um período importante sem partidas oficiais antes da sequência decisiva da temporada. Leonardo Jardim terá tempo para trabalhar, conversar com os jogadores, recuperar comportamentos, aumentar a intensidade, corrigir a saída de bola e criar novas alternativas ofensivas.
Não haverá desculpa relacionada à falta de treinos.
O próximo compromisso precisa servir como ensaio para o confronto decisivo com o Cruzeiro pela Libertadores. Hoje, olhando para o futebol apresentado, é impossível afirmar com segurança que o Flamengo entrará em campo em condições de vencer.
Isso não significa que o Flamengo seja inferior ao Cruzeiro. Significa que, neste momento, joga menos futebol do que poderia e muito menos do que deveria.
A camisa não ganhará o jogo sozinha.
Não é o momento de demitir
Apesar da gravidade do momento, não considero que seja hora de dispensar Leonardo Jardim.
Uma nova troca de treinador agora poderia aumentar ainda mais a instabilidade. O Flamengo possui tempo para trabalhar e jogadores capazes de dar uma resposta.
Atitudes drásticas tomadas no impulso também podem destruir uma temporada.
Mas manter o treinador não significa aceitar tudo em silêncio.
Leonardo Jardim precisa ser cobrado. José Boto precisa ser cobrado. O presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, precisa assumir a responsabilidade pelas decisões tomadas no futebol.
A diretoria precisa definir qual é o projeto.
Se acredita em Leonardo Jardim, deve apoiá-lo, mas também exigir evolução imediata. Não basta entregar mais jogadores. É necessário cobrar organização, desempenho e resultado.
O treinador tem nome, experiência e um grande elenco nas mãos. Chegou a hora de justificar tudo isso dentro de campo.




