O Flamengo precisa discutir seriamente a maneira como administra e negocia os jogadores revelados em sua base. Não estamos falando de um caso isolado. Ao longo dos últimos anos, vimos jovens deixarem o clube por valores que, posteriormente, se mostraram muito pequenos diante da valorização alcançada por esses atletas.
O caso de Natan volta a colocar esse assunto sobre a mesa.
O zagueiro foi formado no Flamengo, era jovem, promissor e mostrava potencial. Quem acompanhava o jogador sabia que existia ali margem enorme para evolução. Mesmo assim, em 2021, o clube acertou sua saída para o Red Bull Bragantino.
Primeiro, o Flamengo recebeu R$ 5 milhões pelo empréstimo. O contrato previa que, caso Natan atingisse determinada quantidade de jogos, o Bragantino teria de pagar outros R$ 22 milhões pela aquisição de parte dos direitos econômicos.
Foi exatamente o que aconteceu.
No total, o Flamengo recebeu R$ 27 milhões pela operação. O clube possuía 60% dos direitos econômicos do zagueiro, vendeu 48% ao Bragantino e manteve 12% pensando em uma futura transferência.
Financeiramente, portanto, não foi uma doação. O Flamengo recebeu dinheiro e teve o cuidado de manter uma participação.
Mas a discussão não termina aí.
Natan mostrou o potencial que já enxergávamos
Natan ganhou espaço no Bragantino, evoluiu, tornou-se um jogador importante e acabou chegando ao futebol europeu.
Em 2023, o Bragantino o negociou com o Napoli por aproximadamente €10 milhões. Como ainda possuía 12% dos direitos econômicos, o Flamengo voltou a receber dinheiro com a transferência.
Depois, Natan seguiu para o Real Betis e continuou sua valorização.
Hoje, depois de se consolidar no futebol espanhol, seu nome aparece relacionado ao Barcelona. O empresário André Cury afirmou que existe interesse do clube catalão, embora ainda não exista proposta oficial. O Betis trabalha atualmente com uma avaliação na faixa de €25 milhões, depois de ter adquirido o jogador do Napoli por €9 milhões.
É impossível afirmar que, em 2021, o Flamengo sabia que Natan seria sondado pelo Barcelona cinco anos depois.
Esse não é o ponto.
A pergunta que precisa ser feita é outra: o Flamengo precisava abrir mão tão cedo de um zagueiro de apenas 20 anos que já demonstrava tamanho potencial?
Natan não é um caso isolado
Outro exemplo é Otávio.
O zagueiro formado no Flamengo foi para o Famalicão, em Portugal, por empréstimo, com opção de compra de apenas €500 mil por 70% dos direitos econômicos. O clube português exerceu a opção. Posteriormente, Otávio se valorizou e chegou ao Porto.
Mais uma vez, um jogador revelado pelo Flamengo ganhou valor significativo depois de deixar o clube.
Matheus Gonçalves também saiu. O Flamengo o negociou com o Al-Ahli, da Arábia Saudita, por €8 milhões, cerca de R$ 50 milhões na época. Pode parecer um valor relevante isoladamente, mas estamos falando de outro jogador jovem, formado no clube e que já havia demonstrado talento acima da média.
Recentemente aconteceu algo semelhante com Rayan Lucas. O volante acertou sua transferência para o Alverca, de Portugal, sem que o Flamengo recebesse compensação financeira imediata. O clube manteve 50% dos direitos econômicos apostando justamente em uma valorização futura.
Manter percentuais é melhor do que simplesmente perder completamente o controle econômico desses jogadores. Mas o Flamengo precisa perguntar por que tantos atletas precisam primeiro sair para que o mercado reconheça seu valor.
Palmeiras mostra que existe outro caminho
Quando observamos o principal adversário esportivo do Flamengo nos últimos anos, a diferença chama atenção.
O Palmeiras transformou suas principais revelações em operações gigantescas.
Endrick foi negociado com o Real Madrid em uma operação que poderia chegar a €60 milhões destinados à negociação dos direitos, além de impostos pagos pelo clube espanhol. Estêvão foi negociado com o Chelsea por aproximadamente €61,5 milhões entre valores fixos e metas.
Não significa que todo jogador da base do Flamengo vale €50 milhões ou €60 milhões.
Também não significa que todas as decisões do Palmeiras sejam corretas.
O que esses exemplos demonstram é a importância de valorizar o ativo antes de negociar.
O Flamengo tem uma das maiores marcas do continente, enorme capacidade financeira, estrutura de formação e uma base que conquista títulos nacionais e internacionais. Um clube desse tamanho não deveria ter necessidade de vender seus melhores jovens às primeiras ofertas.
Se decidir vender cedo, precisa saber negociar.
Se o valor oferecido ainda é baixo, mantenha uma participação econômica relevante.
Se acredita realmente no potencial do atleta, dê espaço, desenvolva e espere o momento certo.
Porque jogador da base não é somente uma opção para completar elenco. É patrimônio do clube.




