Quando Flamengo e Independiente del Valle entrarem em campo nesta quinta-feira pelas quartas de final da Libertadores, o Rubro-Negro não estará enfrentando apenas um adversário beneficiado pela altitude.

Por trás do clube de Sangolquí existe um projeto que mudou a estrutura do futebol equatoriano.

O Del Valle lidera o campeonato nacional com enorme vantagem, chegou novamente entre os oito melhores da América e, ao mesmo tempo, tornou-se uma das principais escolas de formação de jogadores do mundo.

A dimensão desse trabalho apareceu de forma clara na Copa do Mundo de 2026.

Um levantamento do Centro Internacional de Estudos do Esporte (CIES) identificou 12 jogadores formados nas categorias de base do Independiente del Valle entre os convocados do Equador para o Mundial.

São quase metade de uma seleção inteira produzida por um único clube.

E a lista ajuda a entender a dimensão do projeto.

De Moisés Caicedo a jogadores do Flamengo

Os 12 jogadores apontados pelo levantamento são:

Moisés Ramírez, Willian Pacho, Piero Hincapié, Joel Ordóñez, Ángelo Preciado, Moisés Caicedo, Pedro Vite, Kendry Páez, Alan Franco, Gonzalo Plata, Yaimar Medina e Anthony Valencia.

Não estamos falando apenas de jogadores que completaram elenco.

Alguns estão entre os nomes mais importantes da atual geração equatoriana.

Moisés Caicedo tornou-se referência no meio-campo do Chelsea. Willian Pacho consolidou-se no Paris Saint-Germain. Piero Hincapié chegou ao Arsenal. Joel Ordóñez ganhou espaço no futebol belga.

E dois desses jogadores hoje pertencem justamente ao Flamengo.

Gonzalo Plata e Anthony Valencia passaram pela formação do Independiente del Valle antes de seguir para o exterior.

Valencia, contratado pelo Flamengo nesta janela, foi revelado pelo adversário desta quinta-feira e atuou pelo clube equatoriano entre 2020 e 2022 antes de ser negociado com o Royal Antwerp, da Bélgica.

Ou seja: parte da explicação para o talento que o Flamengo foi buscar no mercado estava exatamente na estrutura do clube que agora tenta eliminar na Libertadores.

Por que aparecem números diferentes?

Há levantamentos que falam em mais de metade da Seleção Equatoriana ligada ao Independiente del Valle.

Isso acontece por uma diferença de critério.

O estudo do CIES considera jogadores efetivamente formados na academia do clube, chegando ao número de 12.

Outros levantamentos incluem atletas que passaram por diferentes etapas da estrutura do Del Valle, mesmo sem completar todo o processo de formação no clube.

O ponto central, independentemente do critério, permanece impressionante: poucos clubes no mundo tiveram participação tão grande na construção de uma seleção presente na Copa de 2026.

No ranking do próprio CIES, apenas Ajax e PSV, com 13 jogadores formados cada, ficaram à frente do Del Valle entre as academias com mais representantes no Mundial.

O clube equatoriano apareceu com 12.

Atrás dele ficaram gigantes europeus como Benfica, Manchester United, Bayern de Munique e Paris Saint-Germain.

A base virou futebol profissional

O sucesso da formação não existe isoladamente.

Ele se transformou em resultado dentro de campo.

Em 2016, o Del Valle surpreendeu o continente ao chegar à final da Libertadores depois de eliminar River Plate e Boca Juniors.

Perdeu o título para o Atlético Nacional, mas aquele torneio apresentou definitivamente o projeto ao futebol sul-americano.

Três anos depois, conquistou a Copa Sul-Americana.

Em 2022, repetiu o título.

Em 2023, venceu a Recopa Sul-Americana.

Agora, em 2026, volta às quartas de final da Libertadores.

A única grande taça continental que ainda falta ao clube é justamente a Libertadores.

Domínio impressionante no Equador

O momento atual também ajuda a explicar por que o Flamengo encontrará um adversário confiante.

Depois de 29 rodadas do Campeonato Equatoriano, o Independiente del Valle soma 71 pontos.

São:

23 vitórias 2 empates 4 derrotas 70 gols marcados 31 sofridos saldo positivo de 39 gols

O segundo colocado, Aucas, tem 49 pontos.

A diferença é de 22 pontos.

Em média, o Del Valle conquista 2,45 pontos por partida no campeonato e marca 2,41 gols por jogo.

Na rodada mais recente, venceu o Macará por 3 a 1 mesmo preservando parte dos jogadores pensando na Libertadores.

Esse domínio permite ao clube administrar o calendário doméstico enquanto direciona energia para o confronto com o Flamengo.

A Libertadores confirma a força

O desempenho continental também não é acidental.

O Independiente del Valle terminou a fase de grupos da Libertadores na liderança de sua chave, com 13 pontos.

Depois eliminou o Deportes Tolima nas oitavas de final vencendo os dois jogos: 1 a 0 na Colômbia e 3 a 1 no Equador.

Até agora são oito partidas na competição, com:

6 vitórias 1 empate 1 derrota 15 gols marcados 7 sofridos

Em casa, o rendimento é ainda mais forte.

Foram quatro jogos como mandante e quatro vitórias, com 11 gols marcados e apenas três sofridos.

É justamente esse desempenho que o Flamengo terá de enfrentar na quinta-feira.

Carlos González é a principal ameaça

O nome de maior produção ofensiva do Del Valle na Libertadores é o paraguaio Carlos González.

O centroavante soma sete gols na competição e chega às quartas como uma das principais armas da equipe comandada por Joaquín Papa.

Ao redor dele aparecem jogadores experientes como Junior Sornoza, conhecido do futebol brasileiro, e Jordy Alcívar, além de uma quantidade constante de atletas jovens oriundos do próprio projeto de formação.

Essa combinação ajuda a explicar a identidade do clube.

O Del Valle vende jogadores, mas consegue reconstruir o elenco sem abandonar a forma de jogar.

O Flamengo enfrenta um modelo

Reduzir o Independiente del Valle à altitude seria simplificar demais o confronto.

Os aproximadamente 2.850 metros de Quito certamente representam uma dificuldade física.

Mas a altitude não forma Moisés Caicedo.

Não produz Willian Pacho.

Não revela Piero Hincapié.

Não coloca 12 jogadores de uma mesma academia numa Copa do Mundo.

Também não explica, sozinha, um time que conquistou 71 dos 87 pontos possíveis em seu campeonato nacional.

O Flamengo encontrará um adversário que construiu sua força através de um modelo de formação, venda e reposição de jogadores que hoje influencia diretamente a própria Seleção Equatoriana.

E talvez seja justamente essa a maior advertência antes da Libertadores.

O perigo do Del Valle não começa aos 2.850 metros de altitude. Começa muito antes, na base.