O Flamengo vai enfrentar o Independiente del Valle pelas quartas de final da Libertadores. É um adversário organizado, acostumado a jogos continentais, dono de um projeto esportivo respeitado e que já mostrou mais de uma vez que não deve ser tratado como coadjuvante.
Mas, para mim, o maior perigo que o Flamengo encontrará em Quito nesta quinta-feira não estará vestindo a camisa do Del Valle.
Será a altitude.
Os 2.850 metros acima do nível do mar transformam um jogo de futebol normal em outra experiência. A bola corre diferente, o esforço pesa de outra maneira e aquilo que normalmente parece simples pode começar a exigir um pouco mais do organismo. O próprio Flamengo preparou sua viagem pensando nessa condição.
O Del Valle conhece isso.
Mais do que conhecer, aprendeu ao longo dos anos a transformar a geografia em uma das variáveis do jogo.
E é justamente aí que o Flamengo pode encontrar uma ajuda dentro do próprio elenco.
Altitude não pode virar desculpa
Há uma diferença enorme entre respeitar a altitude e entrar em campo com medo dela.
Se o Flamengo transformar os 2.850 metros em um fantasma antes de a bola rolar, já estará concedendo uma vantagem psicológica ao adversário.
A altitude existe. Seus efeitos são reais. Mas ela não pode ocupar todo o pensamento de uma equipe com jogadores experientes e acostumados a grandes jogos na América do Sul.
O Flamengo já viveu noites boas e ruins em Quito.
Em 2020, por exemplo, empatou por 2 a 2 com o próprio Independiente del Valle pela Recopa Sul-Americana. Bruno Henrique marcou naquela partida. O mesmo estádio e a mesma região já fazem parte da memória de jogadores que continuam no clube.
E Bruno Henrique oferece um exemplo ainda mais recente.
Em abril deste ano, o atacante foi um dos destaques do Flamengo diante do Cusco, atuando a quase 3.500 metros de altitude — portanto, em uma condição ainda mais extrema do que aquela que a equipe encontrará no Equador.
Experiência não produz oxigênio.
Mas produz conhecimento.
O jogador sabe quando não pode gastar energia desnecessariamente. Entende que uma arrancada que parece banal ao nível do mar pode cobrar a conta minutos depois. Aprende a dosar movimentos, recuperar o fôlego e interpretar sensações que assustariam alguém vivendo aquilo pela primeira vez.
Isso conta.
Plata e Valencia conhecem esse ambiente desde cedo
E existem dois jogadores no atual Flamengo cuja relação com esse cenário vai muito além de uma viagem ocasional pela Libertadores.
Gonzalo Plata e Anthony Valencia foram formados pelo Independiente del Valle.
Plata passou pelas categorias de base do clube equatoriano antes de estrear profissionalmente e seguir para o Sporting. O próprio Flamengo, quando anunciou sua contratação em 2024, destacou que o atacante havia sido revelado pelo Del Valle.
Anthony Valencia também percorreu a estrutura do clube.
Chegou ainda jovem, passou pelo Independiente Juniors e posteriormente alcançou a equipe profissional antes de partir para o Royal Antwerp, da Bélgica.
Eles conhecem o futebol equatoriano.
Conhecem a maneira como a bola se comporta.
Conhecem o ritmo dos jogos.
Conhecem o ambiente da região onde o Del Valle trabalha diariamente.
Isso não significa que Plata e Valencia sejam hoje fisiologicamente imunes à altitude. Depois de anos atuando fora do Equador, seria errado tratar o organismo deles como se ainda estivessem permanentemente aclimatados.
Mas existe uma vantagem que não desaparece tão facilmente:
eles sabem o que esperar.
E em um jogo desse tamanho, conhecimento também pode ser ferramenta.
Talvez a contribuição nem precise acontecer com a bola
Quando pensamos na importância de um jogador, quase sempre olhamos para aquilo que ele pode fazer dentro das quatro linhas.
Talvez, neste caso, exista uma contribuição que começa antes.
Plata e Valencia podem conversar com os companheiros.
Podem explicar sensações.
Podem ajudar a identificar quando o jogo precisa desacelerar.
Podem alertar sobre movimentos desnecessários e sobre a necessidade de controlar ansiedade nos primeiros minutos.
Bruno Henrique pode fazer o mesmo a partir das experiências acumuladas em diferentes partidas na altitude.
O Flamengo não precisa transformar esses jogadores em especialistas científicos.
Precisa aproveitar o conhecimento prático de quem já esteve naquele ambiente.
Às vezes, uma conversa no vestiário vale tanto quanto uma orientação no quadro tático.
O Del Valle sabe exatamente como explorar a montanha
Também seria ingenuidade imaginar que o Independiente del Valle não tentará acelerar o jogo justamente porque conhece o desconforto do visitante.
O clube manda suas partidas na região de Quito/Sangolquí, a aproximadamente 2.850 metros, e está acostumado a receber adversários que precisam adaptar ritmo, intensidade e tomada de decisão.
Isso pode aparecer em pressão mais forte no início, velocidade na circulação da bola, finalizações de média distância ou tentativa de obrigar o Flamengo a percorrer muitos metros.
Quanto mais o adversário brasileiro correr sem necessidade, melhor para quem está habituado àquele cenário.
O desafio de Leonardo Jardim, portanto, talvez seja menos “vencer a altitude” e mais não jogar o jogo que a altitude convida o visitante a jogar.
Ter a bola pode ser importante.
Saber descansar com ela, ainda mais.
A altitude não vence ninguém sozinha
Existe uma tendência de transformar jogos em Quito quase em uma batalha contra a natureza.
Também não é assim.
O Independiente del Valle não construiu sua história recente simplesmente porque joga no alto da montanha. O clube possui formação forte, organização e uma identidade futebolística reconhecida — algo que o próprio Fla Opina destacou anteriormente.
Mas em uma eliminatória equilibrada, detalhes ganham proporções maiores.
E os 2.850 metros são um desses detalhes.
Por isso, o Flamengo precisa entrar em campo consciente de que enfrentará dois desafios ao mesmo tempo.
Um deles veste azul e preto.
O outro não aparece na súmula.




