UEFA ameaça FIFA e aumenta pressão sobre Infantino
A crise envolvendo a FIFA e Gianni Infantino ganhou um novo capítulo nesta terça-feira. A UEFA notificou formalmente a entidade que comanda o futebol mundial e informou que avalia adotar medidas legais relacionadas ao plano de vender uma participação nas receitas futuras da Copa do Mundo para investidores privados.
A proposta foi abandonada por Infantino após uma forte reação de confederações, federações nacionais, dirigentes e funcionários da própria FIFA. Entretanto, a retirada do projeto não encerrou o confronto. A UEFA agora quer esclarecimentos sobre a forma como o plano foi desenvolvido e apresentado.
Segundo a Associated Press, os advogados da entidade europeia enviaram uma carta à FIFA informando que consideram possíveis ações judiciais, processos de arbitragem e reclamações regulatórias relacionadas ao projeto conhecido como FIFA Forward Enterprise.
A notificação também solicitou que documentos, mensagens eletrônicas, arquivos e outros materiais ligados à operação sejam preservados. Dezoito executivos foram mencionados, incluindo Gianni Infantino, o diretor financeiro Thomas Peyer e Arsène Wenger, responsável pelo desenvolvimento global do futebol na FIFA.
O plano que provocou a revolta no futebol
A proposta de Infantino previa a criação de uma empresa avaliada em aproximadamente US$ 20 bilhões. Essa nova estrutura assumiria áreas comerciais e operacionais importantes da FIFA, incluindo organização de competições, direitos de transmissão, patrocínios, bilhetes e hospitalidade.
Investidores privados comprariam cerca de 20% da empresa, com a FIFA arrecadando até US$ 4,2 bilhões. Entre os potenciais investidores estava uma empresa ligada ao empresário Joshua Kushner.
A estrutura teria controle sobre operações comerciais e competições da FIFA pelo menos até 2038. Na prática, uma parcela dos lucros futuros de torneios como a Copa do Mundo passaria a estar ligada aos interesses de investidores externos.
Para conquistar o apoio das 211 federações nacionais, a proposta incluía pagamentos adicionais milionários. A promessa de mais recursos poderia ser especialmente atraente para associações menores, que dependem fortemente dos programas de desenvolvimento financiados pela FIFA.
O problema foi a falta de consulta prévia. UEFA, Concacaf e Confederação Asiática afirmaram que não haviam participado adequadamente da construção de uma decisão capaz de alterar profundamente o modelo financeiro do futebol mundial.
UEFA chegou a aprovar boicote às competições
A reação europeia foi imediata. As 55 federações filiadas à UEFA reuniram-se de forma extraordinária e aprovaram por unanimidade um possível boicote às competições organizadas pela FIFA enquanto a proposta permanecesse em discussão.
Sem as seleções e os clubes europeus, torneios como a Copa do Mundo e o Mundial de Clubes perderiam parte considerável de seu valor esportivo, comercial e televisivo. A ameaça elevou drasticamente a pressão sobre Infantino.
A Concacaf também rejeitou a proposta, enquanto a Confederação Asiática criticou a ausência de transparência e de diálogo. Carlos Cordeiro, então conselheiro de Infantino, deixou o cargo em protesto e classificou a operação como prejudicial ao futebol.
Diante do isolamento crescente, Infantino anunciou a retirada do projeto. A FIFA alegou que a iniciativa havia provocado divisões incompatíveis com o objetivo original da proposta.
Para a UEFA, no entanto, desistir do negócio não é suficiente. A entidade considera necessário investigar como uma operação dessa dimensão avançou sem uma discussão ampla com as confederações, federações e dirigentes responsáveis pelo futebol mundial.
Federações retiram apoio a Infantino
A crise já começou a atingir diretamente o futuro político de Gianni Infantino. País de Gales, Sérvia e Suécia retiraram oficialmente o apoio à candidatura do dirigente para um novo mandato à frente da FIFA.
A Federação Sueca justificou a decisão citando problemas recorrentes de governança, transparência e gestão. A Federação Sérvia declarou que os acontecimentos recentes prejudicaram a imagem e a reputação da FIFA e de seu presidente.
A Inglaterra também deve retirar seu apoio. Antes da crise, a reeleição de Infantino para o mandato entre 2027 e 2031 era tratada como praticamente garantida. Agora, a UEFA procura um nome capaz de disputar a presidência na eleição marcada para março de 2027.
Infantino assumiu a FIFA em 2016 e foi reeleito duas vezes sem adversários. Durante a Copa do Mundo de 2026, a entidade indicava que o presidente havia recebido manifestações de apoio de grande parte das 211 federações nacionais.
A retirada pública de apoios europeus mostra, porém, que esse cenário pode mudar rapidamente. Para vencer uma eleição disputada, um candidato precisa construir maioria entre as associações que participam do Congresso da FIFA.
Infantino ainda mantém aliados
Apesar da forte oposição europeia, a saída de Infantino não está definida. O dirigente ainda possui apoio importante principalmente em federações africanas e em parte do futebol sul-americano.
Representantes do Catar e de Marrocos defenderam os programas de desenvolvimento implementados durante sua gestão e mantiveram apoio ao presidente da FIFA. A Conmebol também não anunciou uma ruptura com Infantino.
A situação cria uma disputa política entre blocos do futebol mundial. De um lado, UEFA, Concacaf e parte da Ásia exigem mudanças de governança. Do outro, federações que receberam investimentos relevantes da FIFA podem considerar mais vantajosa a continuidade da atual administração.
Por isso, a ameaça de ação legal pode ter consequências maiores do que a simples apuração do projeto. A preservação de documentos abre caminho para investigações sobre os responsáveis pela proposta, as negociações com investidores e o nível de conhecimento dos principais executivos da FIFA.
Até o momento, não existe processo judicial concluído nem decisão pela saída de Infantino. O que existe é uma notificação formal, uma crise de confiança e um movimento político crescente para impedir sua permanência na presidência.




