A discussão sobre o Vasco no Maracanã ganhou um novo capítulo. O clube pretendia mandar no estádio o jogo de volta contra o Independiente Santa Fe, em 15 de setembro, pelas quartas de final da Copa Sul-Americana, mas recebeu nova negativa da administração formada por Flamengo e Fluminense. O próprio Vasco já confirmou São Januário como palco da partida.

O episódio acontece menos de um mês depois de outra disputa. Em 21 de agosto, a Justiça do Rio de Janeiro negou o pedido de tutela de urgência apresentado pelo Vasco para enfrentar o Vitória, pela Copa do Brasil, no Maracanã. A decisão não encerrou o processo sobre o direito de utilização do estádio, mas manteve naquele momento a negativa da concessionária.

A repetição dos pedidos recoloca uma discussão importante: até onde vai o interesse de um terceiro em utilizar o Maracanã e onde começa a responsabilidade de quem venceu a concessão e responde diariamente pelo complexo?

Uma concessão de 20 anos

Flamengo e Fluminense venceram a licitação promovida pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro e assinaram, em setembro de 2024, a concessão do Complexo Maracanã por 20 anos. A Fla-Flu Serviços S.A. ficou responsável pela gestão, operação e manutenção do Maracanã e do Maracanãzinho.

A proposta vencedora prevê outorga anual de R$ 20.060.874,12. O edital também estabelece aproximadamente R$ 186 milhões em investimentos ao longo da concessão, incluindo intervenções em sistemas de água, elevadores, escadas rolantes, climatização, equipamentos eletrônicos, Museu do Futebol e estruturas do Maracanãzinho.

O Vasco também participou da concorrência, em consórcio com a WTorre, mas não venceu. Na classificação final, o Fla-Flu terminou com 120,2 pontos, contra 97 do Maracanã Para Todos. Isso não impede o clube de solicitar o estádio. O que muda é que a responsabilidade permanente da concessão ficou com Flamengo e Fluminense.

Vasco no Maracanã: pedido não é direito automático

Em abril de 2025, Flamengo, Fluminense e Vasco firmaram um entendimento que permite ao clube cruz-maltino pleitear até quatro partidas por temporada em 2025 e 2026, sem contar os clássicos contra Flamengo e Fluminense. O próprio Flamengo registrou que a utilização depende de disponibilidade e de condições adequadas para a realização dos jogos.

Na ação de agosto de 2026, surgiu ainda uma disputa jurídica sobre esse memorando. A Fla-Flu Serviços alegou que o documento foi assinado por Vasco, Flamengo e Fluminense, mas não pela própria concessionária, e por isso não teria força para obrigá-la. O mérito dessa discussão não foi encerrado pela decisão que negou a tutela de urgência.

É importante fazer uma correção sobre a quantidade de partidas. Não é correto afirmar que o Vasco utilizou as quatro datas extras em 2025. Em novembro daquele ano, o ge informou que o clube ainda não havia exercido nenhuma delas. Já em agosto de 2026, na disputa envolvendo Vasco x Vitória, a defesa da concessionária afirmou que o Vasco havia utilizado o Maracanã seis vezes desde abril de 2025. Esse número abrange todo o período desde então e não significa seis utilizações extras do acordo em 2025.

Isso também mostra que não existe uma proibição absoluta ao Vasco. A discussão está nas datas, no calendário e nas condições do estádio.

Gramado transforma calendário em questão central

O estado do gramado fortalece a necessidade de planejamento. Jogadores do próprio Flamengo vêm criticando publicamente o campo, e o Maracanã passou por intervenções em agosto. Na negativa para Vasco x Vitória, a concessionária alegou que aquela semana havia sido reservada para manutenção integral do gramado.

Não é possível atribuir ao Vasco a responsabilidade pela condição atual do campo. O Maracanã recebe um calendário intenso de Flamengo, Fluminense, clássicos, competições nacionais e internacionais e outros eventos. Mas cada partida adicional ocupa uma data e reduz o intervalo disponível para recuperação.

A sequência de setembro ajuda a entender o problema. Flamengo x Corinthians está marcado para 13 de setembro no Maracanã. O Vasco queria enfrentar o Santa Fe no estádio no dia 15. Dois dias depois, em 17 de setembro, Flamengo e Independiente del Valle disputam no mesmo campo o jogo de volta das quartas de final da Libertadores.

Na prática, aceitar o pedido criaria uma sequência de três partidas em cinco dias no Maracanã, justamente num momento em que o gramado já é alvo de críticas e trabalhos de recuperação.

Quando o Maracanã se torna a opção mais conveniente

Também é fácil compreender o interesse do Vasco. São Januário tem capacidade muito menor, e um mata-mata continental pode gerar procura elevada por ingressos. Levar uma partida de grande apelo ao Maracanã oferece possibilidade de público e receita superiores.

O problema aparece quando essa conveniência passa a ser tratada como um direito automático. Se toda partida com previsão de grande público levar a um novo pedido e, diante de uma negativa, a uma tentativa de judicialização, cria-se um desequilíbrio: um clube aproveita o estádio nas datas mais atraentes, enquanto as obrigações permanentes de operação, manutenção e investimento permanecem com os concessionários.

O Vasco tem o direito de pedir. Flamengo e Fluminense também precisam ter o direito de administrar, especialmente quando a decisão envolve preservação do campo e compromissos já previstos no calendário.