Vinícius Júnior voltou a viver uma noite de tensão com as arquibancadas nesta terça-feira, 8 de setembro. Desta vez, porém, o cenário tornou o episódio ainda mais simbólico: as vaias partiram de uma parcela da própria torcida do Real Madrid, no Santiago Bernabéu.

O brasileiro foi substituído aos 42 minutos do segundo tempo da vitória por 2 a 1 sobre a Inter de Milão, na estreia do Real na Champions League, e ouviu assobios enquanto deixava o gramado.

José Mourinho reagiu imediatamente. O treinador aplaudiu Vinícius, abraçou o atacante e, depois da partida, saiu publicamente em sua defesa, destacando principalmente o trabalho realizado pelo jogador mesmo sem uma grande atuação ofensiva.

A cena chama atenção por si só.

Mas ganha outra dimensão quando colocada ao lado de tudo o que aconteceu com Vinícius ao longo dos últimos meses — inclusive em Portugal e em um jogo envolvendo diretamente o Flamengo.

Fevereiro: Vinícius denuncia Prestianni em Lisboa

Em 17 de fevereiro, Benfica e Real Madrid se enfrentaram no Estádio da Luz pela Champions League.

Vinícius marcou o gol da vitória espanhola por 1 a 0. Pouco depois, procurou o árbitro François Letexier e afirmou ter recebido um insulto racista do argentino Gianluca Prestianni.

O árbitro interrompeu a partida e acionou o protocolo antirracismo. O jogo permaneceu paralisado por aproximadamente dez minutos antes de ser retomado. Prestianni negou posteriormente ter dirigido uma ofensa racista ao brasileiro.

A investigação da UEFA trouxe posteriormente uma distinção importante.

Prestianni acabou punido com seis partidas por conduta discriminatória de caráter homofóbico, sendo três jogos de suspensão efetiva e outros três com pena suspensa por dois anos. Portanto, apesar da denúncia inicial de Vinícius ter sido de racismo, a punição final da UEFA foi por conduta homofóbica.

E havia um personagem naquele Benfica x Real Madrid que hoje reaparece nesta história.

José Mourinho.

Mourinho estava do outro lado

Mourinho era treinador do Benfica naquela noite.

Logo depois da partida, recusou assumir imediatamente a versão de qualquer um dos jogadores e chegou a fazer uma crítica à maneira como Vinícius havia comemorado seu gol diante da torcida portuguesa.

Dias depois, entretanto, endureceu sua posição.

Mourinho afirmou que, caso ficasse comprovado que Prestianni havia praticado racismo, o jogador argentino não teria mais espaço sob seu comando no Benfica. O treinador defendeu a necessidade de aguardar a investigação, mas deixou claro qual seria sua atitude diante de uma comprovação.

Seis meses depois, Mourinho está sentado no banco do Real Madrid.

E é justamente ele quem aparece abraçando Vinícius depois das vaias do Bernabéu.

Julho: Flamengo entra na história em Portugal

Entre os dois episódios aconteceu algo particularmente relevante para o torcedor rubro-negro.

Em 11 de julho, Flamengo e Benfica se enfrentaram no Estádio Algarve durante a intertemporada europeia do clube brasileiro.

Quando Prestianni entrou em campo, parte da numerosa torcida do Flamengo presente no estádio transformou o amistoso em uma demonstração explícita de solidariedade a Vinícius.

O argentino foi vaiado praticamente a cada toque na bola, ouviu gritos de “racista”, enquanto flamenguistas também gritavam o nome de Vinícius Júnior.

O clima também aumentou dentro do campo.

Emerson Royal e Erick Pulgar deram entradas fortes em Prestianni pouco depois de sua entrada, e uma delas provocou discussão entre as comissões técnicas de Flamengo e Benfica. A imprensa portuguesa também destacou que o argentino havia se tornado alvo das arquibancadas e de lances mais duros.

Não há elemento suficiente para afirmar jornalisticamente que os jogadores do Flamengo cometeram as faltas como uma retaliação pelo episódio com Vinícius.

Mas, nas arquibancadas, não havia qualquer dúvida sobre a mensagem.

A torcida rubro-negra transformou o nome do ex-jogador do Flamengo em resposta ao episódio ocorrido meses antes.

Agora, as vaias vêm de casa

É justamente esse contraste que torna o episódio desta terça-feira diferente.

Em fevereiro, Vinícius deixou o campo em Lisboa depois de denunciar uma ofensa.

Em julho, milhares de quilômetros depois, torcedores do clube onde foi formado fizeram questão de gritar seu nome em Portugal.

Agora, em setembro, a hostilidade veio de dentro do Santiago Bernabéu.

Vinícius não teve participação direta nos gols contra a Inter e ainda busca sua melhor condição, mas Mourinho destacou depois da partida que o brasileiro trabalhou intensamente para a equipe e, por isso, merecia respeito.

O treinador que estava do outro lado no início dessa sequência tornou-se, seis meses depois, uma espécie de escudo público para o atacante.