A eliminação do Flamengo diante do Estudiantes deixou uma questão que vai além dos pênaltis. Após o empate sem gols no Maracanã e a derrota por 3 a 2 nas penalidades, Leonardo Jardim explicou uma das decisões mais importantes da partida: a escolha de Pedro para começar entre os titulares.
Na entrevista coletiva, o treinador afirmou que esperava um Flamengo com maior posse de bola e domínio territorial. Por isso, entendeu que as características de Pedro seriam mais adequadas para enfrentar uma defesa organizada e com poucos espaços.
A declaração, no entanto, ganha maior dimensão quando confrontada com o desempenho ofensivo da equipe, a fase irregular do centroavante e o histórico recente do treinador, que apresenta números expressivos no comando rubro-negro, mas já acumula duas eliminações importantes na temporada.
POR QUE JARDIM ESCOLHEU PEDRO?
A explicação do treinador passa pelas características dos atacantes. Pedro oferece referências dentro da área e participação nas combinações ofensivas, enquanto Bruno Henrique apresenta características que favorecem os ataques em velocidade e as transições.
A estratégia de Jardim previa um Flamengo instalado no campo adversário, precisando encontrar soluções contra uma equipe defensivamente organizada.
Entretanto, a superioridade territorial não se transformou em gols.
A escolha também trouxe novamente ao debate o momento técnico de Pedro. O centroavante vive uma temporada marcada por oscilações e já enfrentou períodos de baixa produtividade ofensiva.
Em setembro, por exemplo, chegou a completar cinco partidas sem marcar antes de encerrar a sequência diante do Bragantino.
Contra o Estudiantes, Pedro participou de uma das melhores jogadas do primeiro tempo. Após receber passe de Carrascal, dominou dentro da área e encontrou Emerson Royal com um toque de calcanhar. O lateral finalizou, mas a defesa argentina conseguiu bloquear.
Em outra oportunidade, o camisa 9 recebeu de costas, superou a marcação e finalizou cruzado, sem conseguir encontrar um companheiro na segunda trave.
Os lances mostram que o atacante participou de construções ofensivas importantes. Entretanto, sua presença não foi suficiente para transformar o domínio do Flamengo em gols.
A discussão sobre sua titularidade, portanto, não pode ser reduzida à qualidade que Pedro já demonstrou ao longo da carreira. O momento técnico também precisa ser considerado quando o treinador define uma escalação para uma partida decisiva.
Jardim apostou nas características do centroavante e, mesmo após o resultado, deixou claro que manteria sua escolha.
POSSE DE BOLA SEM EFICIÊNCIA
Durante sua análise da partida, Jardim mencionou quase 75% de posse de bola, mas reconheceu que sua equipe criou apenas duas situações de gol.
Os números apresentados pelo treinador expõem um contraste importante entre controlar a partida e efetivamente ameaçar o adversário.
O Flamengo conseguiu manter a bola durante longos períodos, mas encontrou dificuldades para penetrar na defesa argentina.
O Estudiantes apresentou uma organização defensiva que reduziu os espaços entre as linhas e obrigou o time brasileiro a procurar alternativas pelos lados do campo.
A situação ficou ainda mais favorável ao Flamengo no início do segundo tempo, quando Baltasar Rodríguez recebeu o segundo cartão amarelo e foi expulso.
Com um jogador a mais durante praticamente toda a etapa final, o Rubro-Negro ganhou uma oportunidade significativa de intensificar a pressão.
Entretanto, nem mesmo a vantagem numérica foi suficiente para superar a defesa adversária.
A equipe manteve o domínio territorial, mas encontrou dificuldades para acelerar as jogadas, infiltrar jogadores na área e criar oportunidades claras de finalização.
O resultado foi uma partida em que a posse de bola teve pouca correspondência com a produção ofensiva.
É nesse ponto que a decisão de Jardim merece uma análise mais profunda.
Se a presença de Pedro tinha como objetivo melhorar o jogo posicional e oferecer uma referência dentro da área, por que o Flamengo encontrou tantas dificuldades para transformar esse modelo em oportunidades?
A resposta não depende exclusivamente do desempenho individual do atacante.
Também envolve a movimentação dos meias, a qualidade do último passe, o aproveitamento dos corredores laterais e a capacidade coletiva de acelerar o jogo diante de uma defesa fechada.
OS NÚMEROS DE JARDIM NO FLAMENGO
A análise da eliminação precisa considerar o trabalho desenvolvido por Leonardo Jardim desde sua chegada ao clube.
Antes da semifinal diante do Estudiantes, o treinador somava 45 partidas, com 29 vitórias, 12 empates e apenas quatro derrotas, alcançando aproximadamente 73% de aproveitamento.
É um desempenho estatístico expressivo, especialmente em uma temporada marcada por compromissos nacionais e internacionais.
O treinador também conquistou o Campeonato Carioca, demonstrando capacidade de organizar a equipe e manter regularidade durante boa parte da temporada.
Entretanto, os resultados em competições eliminatórias apresentam um cenário diferente.
Sob seu comando, o Flamengo já deixou duas disputas importantes pelo caminho: a Copa do Brasil e a Libertadores.
A primeira eliminação aconteceu em maio, diante do Vitória.
Após vencer o confronto de ida por 1 a 0, o Flamengo foi derrotado por 2 a 0 no Barradão, em Salvador, e acabou eliminado na quinta fase da Copa do Brasil.
Naquela ocasião, o Rubro-Negro também teve períodos de maior posse de bola e volume ofensivo, mas não conseguiu transformar suas oportunidades em gols suficientes para garantir a classificação.
Agora, diante do Estudiantes, o problema voltou a aparecer em um contexto diferente.
O Flamengo empatou por 0 a 0 nos dois jogos da semifinal, não conseguiu superar a defesa argentina e acabou eliminado nos pênaltis.
A repetição de dificuldades ofensivas em confrontos decisivos não significa que as partidas tenham apresentado os mesmos problemas táticos. Os adversários, as circunstâncias e as estratégias foram diferentes.
Ainda assim, os episódios levantam uma questão importante: por que uma equipe com números tão positivos ao longo da temporada encontra dificuldades para transformar seu rendimento em classificações nos momentos decisivos?
O APROVEITAMENTO É BOM, MAS E AS DECISÕES?
Leonardo Jardim demonstra capacidade de conquistar pontos e manter o Flamengo competitivo.
O desempenho no Campeonato Brasileiro reforça essa avaliação. A equipe chega à reta final da competição na liderança, com 67 pontos, um à frente do Palmeiras.
A regularidade é um mérito que precisa ser reconhecido.
Entretanto, o futebol também exige respostas nos jogos em que não existe margem para recuperação.
Em confrontos eliminatórios, uma dificuldade ofensiva que pode ser compensada na rodada seguinte do Brasileirão pode significar o encerramento de uma competição.
É justamente nesse cenário que as escolhas de um treinador ganham maior importância.
Escalar Pedro não representa automaticamente um erro. A decisão possui fundamentos técnicos e pode ser defendida dentro da proposta de jogo apresentada por Jardim.
O problema surge quando a estratégia planejada não consegue produzir o resultado necessário.
Nesse momento, a capacidade de adaptação passa a ser tão importante quanto a qualidade da escalação inicial.
As substituições, a alteração dos posicionamentos e a procura por soluções diferentes fazem parte da responsabilidade de quem comanda a equipe.
Contra o Estudiantes, Jardim promoveu mudanças e utilizou alternativas ofensivas, incluindo Arrascaeta, Bruno Henrique e Plata.
Mesmo assim, o Flamengo não encontrou o caminho do gol.
O fato de o treinador defender a escolha inicial não impede que sua condução da partida seja analisada e questionada.
PEDRO OU BRUNO HENRIQUE: A ESCOLHA ERA O ÚNICO PROBLEMA?
A comparação entre Pedro e Bruno Henrique ganhou força justamente pelas características distintas dos dois jogadores.
Pedro oferece presença centralizada, capacidade de jogar próximo aos zagueiros e recursos técnicos para participar de combinações em espaços reduzidos.
Bruno Henrique, por sua vez, oferece mobilidade, velocidade e capacidade de atacar espaços.
Nenhum desses perfis, isoladamente, garante superioridade contra uma defesa organizada.
A eficiência depende da maneira como a equipe cria condições para aproveitar as características do jogador escolhido.
No caso de Pedro, o Flamengo precisava aproximar os meias, realizar movimentos coordenados e oferecer passes em condições favoráveis dentro da área.
Com Bruno Henrique, a equipe poderia buscar alternativas de profundidade e deslocamentos capazes de movimentar a linha defensiva adversária.
A decisão entre um ou outro também passa pelo desempenho recente de cada atleta e pelas necessidades específicas da partida.
Por isso, a discussão não deveria se limitar a descobrir quem seria o titular ideal.
A questão central é compreender por que o Flamengo encontrou tão poucas soluções ofensivas, independentemente dos jogadores utilizados.
O QUE FICA PARA O RESTANTE DA TEMPORADA?
Com a eliminação da Copa do Brasil e da Libertadores, o Campeonato Brasileiro passa a concentrar as atenções do Flamengo.
A equipe enfrenta o Atlético-MG na próxima segunda-feira, 26 de outubro, às 20h, no Maracanã, pela 32ª rodada.
O confronto será importante para avaliar a reação rubro-negra após uma eliminação de grande impacto esportivo e emocional.
Jardim possui números que sustentam aspectos positivos de seu trabalho. São 29 vitórias em 45 partidas antes da semifinal continental, além da liderança do Brasileirão na reta final.
Mas também carrega a responsabilidade pelas escolhas realizadas em duas campanhas que terminaram antes do objetivo desejado.
A defesa da titularidade de Pedro representa uma convicção do treinador. O desafio será demonstrar, dentro de campo, que suas decisões e seus ajustes conseguem oferecer soluções diante de adversários que dificultam o funcionamento do Flamengo.
Porque, para além da discussão sobre quem começou jogando, a pergunta que permanece é outra: como uma equipe com tanto domínio de bola e qualidade individual pode encontrar tão poucas respostas nos momentos em que mais precisa vencer?








